10 encontro

10/28/2009

O CÚPIDO DA ANUNCIAÇÃO

Autoria: Degraconis e João
Parte I (de III)
Introdução à Quinta da Anunciada Velha em Thomar

Apesar de ainda não se ter anunciado em cartaz o próximo evento que ocorrerá em Dezembro, inicia-se desde já por partes uma série de posts dedicados ao local onde este irá ter lugar. Tal é a força do lugar que nos impele a tanta revelação.
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Expressões como “quem puder entender que entenda” ou “quem tiver ouvidos que oiça” não são de todo estranhas à literatura místico-religiosa de cariz hermético, as quais deixam antever que o grau de entendimento da obra depende do nível de sapiência de quem as lê.

Aludem essas advertências para a razão do homem ou para um dos órgãos dos sentidos, como sejam os ouvidos ou para os olhos no caso da expressão “quem tiver olhos que veja”. Decerto são expressões alegóricas, contudo, numa literatura de diferente espécie ou estilo, encontramos uma outra que sem rodeios e metáforas se dirige como uma seta ao que se torna imprescindível “ter” para entendimento da obra: Amor, simplesmente Amor. Refiro-me à expressão Camoniana inserida nos Lusíadas, como que a glosar a obra, “E sabei que, segundo o amor tiverdes, / tereis o entendimento de meus versos!” Dessa forma declara Camões que a épica obra que narra e enaltece a aventura dos Lusitanos só pode-se revelar totalmente segundo o Amor que tiverdes.
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Não será abusar se insistir que algumas das grandes obras portuguesas só são susceptíveis de acesso total através desse mesmo Amor que os Lusíadas exigem, e não me refiro à literatura somente. Também outros épicos, talhados em pedra, o evocam. Não é possível entrar no convento de Cristo – pelo pórtico principal – sem que não seja o visitante atingido pelas setas que uma criança alada, que se esconde na aduela superior que fecha o arco, segura na mão direita como que pronta a lançar sobre quem se atreva a transpor o pórtico. Trata-se de uma representação, como há poucas, de um cupido que sinaliza a entrada naquele espaço como o início de um circuito espiritual ou iniciático que obriga ao despertar do Amor. Caso quiséssemos ir mais longe na interpretação dessa alegoria, e na visão da tradição oitocentista dos escritores herméticos, como Sampaio Bruno, Rosseti ou Grasset d’Orcet, para os quais, desde o século XIV, o amor enquanto conceito equivale a “Anti-Roma”, sendo que Amor é anagrama invertido de Roma, poderíamos concluir que aquele local que foi outrora templário foi então sede dos “Fieis do Amor”, ou seja, infiéis de Roma.

Estaríamos assim, perante um enunciado heterodoxo nos seus preceitos secretos, o enunciado cifrado de uma entrada numa igreja “interior” ou “joânica” – António Quadros refere tal conceito a respeito da religião Templária - que se oporia à igreja papal. Seria o enunciado da igreja dos “Cavaleiros do Amor”, entendido como amor iniciático.

O destaque dado a essa figura, em lugar privilegiado no seio desse pórtico, é deveras interessante e intrigante, que aliás podemos referir como aparentemente desadequado num contexto monástico, visto o cúpido quinhentista ser iminentemente profano. Porém trata-se de um cupido sem venda, o que pode explicar e até justificar a falta de pudor em sujeitar todos os que entram nesse convento aos dardos ou setas dessa criaturazinha. Este amor não é cego e sabe bem o que faz. De igual modo surge no púlpito do refeitório do Convento duas crianças aladas inspiradas no modelo do Eros clássico – putti – uma com a aljava e outra com a tocha do Amor. De facto, muito segredo esconde a Arte Manuelina ainda nos dias de hoje.


O símbolo por excelência do nascimento espiritual é o ovo, elemento que encontramos logo após transpormos o pórtico. Os ovos alinhados numa fieira fecham a alegoria que se inicia na parte exterior com o cúpido. Estamos perante um novo homem – usando palavras de São Paulo - o homem que morreu para o mundo profano e que se inicia na religião que une (re-liga) como um Nó o domínio terrestre e o domínio celeste.


Mas não é esta alegoria exclusiva do Convento de Cristo pois podemos encontrar semelhante motivo no mosteiro dos Jerónimos, também este de lavra Manuelina. Tal é o Amor nesses monumentos que chegam a ser considerados poesia talhada em pedra.


Mosteiro dos Jerónimos – Os ovos entre os quais se intercalam as setas cupidianas

Impõe-se assim que a única chave hermenêutica que o poeta e os arquitectos do Manuelino consideram susceptíveis de nos permitir o acesso ao sentido da sua obra é o Amor. A compreensão real desse discurso amoroso que permeia todas estas obras só é possível a partir de uma real vivência ou potência do mesmo amor, que possa iluminar afectivamente um entendimento baseado na razão só por si impotente para abarcar o que o excede.

Já que anteriormente referi alegoricamente a ideia de “Nó”, e não foi ingenuamente, convirá atender ao seu significada sucintamente, já que se liga aos demais que temos vindo a referir, ocupando algumas vezes o lugar que o cúpido tem no Convento. É o caso do pórtico da Capela da Santíssima Trindade da Regaleira, tornando-se assim prova inequívoca do seu simbolismo sagrado, afastando a teoria que o remete para uma função de motivo ornamental puramente de significado marítimo.


Laço do Amor no arco do pórtico debaixo do Deus Pai que abençoa quem entra

Carece ainda hoje de plena explicação a profusão com que surgem na arquitectura Manuelina, mas a sua colocação em locais tão primorosos só podem levar à conclusão de que estão sob influência do sistema hermético do neoplatónico Marcílio Ficino, onde o Nó é concebido como reflexo do amor que garante a mediação entre os componentes universais: “amor nodus perpetus er copula mundi”, “o amor é nó e vínculo perpétuo do mundo”. O laço ou nó opera a ligação através do espírito, entre o corpo e a alma e simboliza o atingir da Graça Divina – não é esta o que a igreja pretende? – e atribui aos seus portadores ou que nela se embrulhem o título de Iniciados.

“Amor é fogo que arde que não se vê” mas também, sublinhe-se, que arde e não se extingue quando se refere a um amor na linha de Platão – amor divino – e prova dessa teimosia em não se consumir encontramos precisamente na Quinta da Anunciada Velha em Thomar. Passados séculos e apesar das vicissitudes do tempo desenterrou-se há poucos anos um prato no qual surge um peculiar Cúpido que vê, tal como o do Convento de Cristo. Portanto não expressará este o Amor cego ou o Cúpido que na idade média se associava a amores carnais e terrenos mas sim um amor divino e celestial que sabe bem o que faz. Aliás as inúmeras representações de Cupido (Eros) na arte helenística e romana nunca mostram o tema de venda cobrindo os olhos desse jovem alado.


De data incerta mas balizável entre o séc. 16/17, talvez obra da
Ordem de Cristo ou mesmo da Ordem dos Capuchos (?)

É tarefa ingrata tentar conciliar as diversas representações do cupido e será expor o assunto de forma ligeira se dissermos que o cupido com a venda, ou seja cego, seja a representação do amor sensual, e que a sua ausência significaria o amor divino ou o “amor que Deus ou os Deuses nos têm”. Todavia talvez nos sirva para os efeitos pretendidos. Sobre esta base podemos então ver o cupido do pórtico do convento como causador de um amor que só nos pode aproximar da divindade; não é este cego e só se faz portador de uma seta que tomaremos como sendo a de ouro, a que desperta ou inflama amores. Não é atípico vê-lo munido de duas setas, uma de ouro e a outra de chumbo, esta última antítese da primeira, ou seja, lançada para extinguir o amor ou eventualmente para despertar rancor ao amor, mas desta não se faz detentor.

Na ideia do proprietário esta representação do Cupido que vê, não obstante ser dotado de venda embora transparente e deixando transparecer os olhos, é prova inequívoca de que afinal não é o amor assim tão cego quanto às suas “diabruras” Contudo julgo que, e não desconsiderando tal opinião, ser uma alusão quanto ao tipo de amor que traz na ponta das suas flechas, ou seja, uma amor igual ao que encontramos no Convento e nos Jerónimos em Belém, um amor sagrado.

Iniciámo-nos deste modo no Amor com esta extensa introdução, o qual evoco para nos guiar ao longo dos posts seguintes, tal como Vénus e uma legião de Cúpidos guiou os Portugueses nos Lusíadas até à ilha dos Amores.

Edificação Manuelina na Quinta onde se verifica restos de Corda Manuelina

COMENTÁRIOS NO TÓPICO "ICONOGRAFIA E SIMBÓLICA" DO FORUM

(a partir da pág 4)

Notas de rodapé:

1. A ideia deste ensaio era debruçarmo-nos unicamente sobre o Cúpido da Quinta da Anunciada, até porque a análise iconográfica e interpretativa só por si dava para tecer substanciais considerações, mas como sempre acabámos por ser chamados pelo Convento e para não abusar na extensão do post, infelizmente, não lhe demos o destaque merecido. Requer este um debate mais profundo pois levanta alguma problemática a nível da interpretação visto ser uma mulher representada – os cabelos só por si denunciam essa intenção – e isso poder ser uma alusão directa ao amor sensual. Apesar de algumas vezes o Cúpido ser representado como do sexo feminino é mais usual vê-lo na figura de como uma criança, um andrógino ou mesmo um jovem adolescente, excepção de se faça à arte alemã onde possivelmente devido ao facto de as palavras “Liebe” e “Minne” serem ambas do género feminino, verifica-se uma forte tendência para personificar o Cúpido cego como uma mulher. Na Alemanha a figura da mulher nua conservou-se – com ou sem venda – em inúmeras representações tardo medievais do amor puramente sensual, representações essas semelhantes à que vemos no prato. A inclusão de um coração talvez reforce a ideia de um amor menos celestial do que enunciei no texto. Estas considerações levam-nos a pensar como poderíamos conciliar a existência desse prato no seio dos preceitos da Ordem dos Capuchos ou até dos da Ordem de Cristo. Contudo o tema do Cúpido cego foi também um tema moralizante, uma forma de mostrar que o Cúpido símbolo do amor sensual está nu e cego porque priva os homens das suas roupas, dos seus haveres, do seu bom senso e sensatez. Ainda numa mitografia moralizante podemos dizer que está cego porque cega as pessoas e leva-as a perder o discernimento guiando-se estas unicamente pela pura paixão. Deixaremos este debate para o evento na Quinta.

2. A influência de Marsilio Ficino (1433-1499) na história do pensamento ocidental é impressionante. Além de ter traduzido para o latim textos importantes da tradição neoplatônica, nomeadamente Platão, Ficino presidiu a Academia de Careggi, reunindo importantes humanistas no auge do Renascimento, tendo sido um protegido dos Medicis. Os seus tratados sobre amor, beleza, luz, magia e imortalidade da alma influenciaram marcantemente a produção de outros pensadores.

10/08/2009

NAS ENTRANHAS DO CONVENTO

Notícia do jornal "O Templário"



(clicar na imagem)
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NAS ENTRANHAS DO CONVENTO

A mística templária voltou a reunir este fim-de-semana em Tomar os leitores do http://blog.thomar.org/. Com um programa repartido por dois dias, contou com a presença de algumas dezenas de pessoas oriundas dos mais diversos pontos do país.

Fundado nos primórdios da nacionalidade e sujeito a uma prática quase ininterrupta de mais de 500 anos de construção onde não falta a presença de qualquer estilo arquitectónico, o Convento de Cristo é uma espécie de portal para o entendimento do sentimento Português. Mas quantas portas não foram ainda abertas? Quantos corredores não foram ainda percorridos? Quantas peças do puzzle da história de Portugal se escondem para lá dos percursos do Convento hoje visitáveis pelos turistas?
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Nas últimas décadas temos assistido à abertura de muitas zonas que durante anos estiveram vedadas por falta de reabilitação e segurança, ou mesmo por falta de recursos humanos. Todavia, o Convento de Cristo é um complexo militar medieval e conventual de considerável dimensão – nove claustros – que ainda hoje não permite a desocultação a todos os seus segredos. Desta feita, e por consideração ao interesse que o http://blog.thomar.org/ tem vindo a demonstrar pela história e património de Tomar, foi possível por meio do Excelentíssimo Rui Ferreira – do Convento de Cristo – conhecer o que se encontra por detrás de certas portas fechadas que intrigam qualquer visitante.

Se em eventos anteriores privilegiou-se a vista a locais ligados com a permanência da Ordem Templária no castelo, desta vez optou-se pela desejável visita aos espaços ocupados no séc. XIX pelo hospital militar. Construção de uma época tardia – séc. XVII – esta zona do Convento esconde vestígios Templários, talvez o único elemento pertencente à antiga muralha que açambarcava os aposentos da Ordem do Templo. No piso inferior do local atravessou-se um extenso corredor de dependências que ainda só à 40 anos foram postas a descoberto, findo o qual alcança-se uma porta, ligeiramente elevada em relação ao solo, e atrás da qual se esconde então os restos da muralha ou do um antigo Torreão Templário, que entretanto tinha ficado ocultado pela construção deste edifício.

A curiosidade em visitar a designada Sala dos Cavaleiros, situada numa das pontas deste antigo hospital Militar, anteriormente enfermarias do Convento, foi desta vez sanada. Curioso foi também saber que em tempos esta sala serviu de enfermaria onde era usual os enfermos, deitados nas suas camas, lançarem o seu calçado contra o belíssimo tecto de caixotão que maravilhou os visitantes e onde se inscrevia uma frase em latim não decifrada completamente.
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Mas se alguns “dão com os pés” no património e outros satisfazem-se pela visita aos sítios mais emblemáticos deste magnificente monumento, outros exigem ir mais longe, onde outros não se atrevem a ir. Poderíamos dizer em bom Português que fomos “mandados para a merda”. De facto foi o grupo levado às "entranhas" do Convento; visitou-se uma galeria semi-subterrânea, à qual se acede através de um escuro túnel descendente e que nos leva a um cenário cinematográfico digno de um Indiano Jones ou Lara Croft, não obstante ter este como função a recolha das necessidades dos monges conventuais em tempos idos. Desta sala com um pé direito elevadíssimo sai um outro túnel que atravessa toda a horta dos frades e encontra a luz do dia na Mata dos Sete Montes, onde serviria para efeitos de adubagem. Para demonstrar o quanto diverso é o grupo basta dizer que um dos seus elementos avançou de imediato com uma possível solução para a resolução dos problemas relacionados com os odores oriundos do túnel que ainda hoje, e por ter sido bloqueado incorrectamente à bastantes anos, esconde necessidades antigas libertando odores difíceis.
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Difícil é também o entendimento da torre D. Catarina, sobre a qual recai algumas das lendas que a tomam como entrada – ou saída – do mítico túnel que ligaria o Castelo à Igreja de Santa Maria dos Olivais. O amontoado de construções e as tentativas logradas no seio desta torre para se encontrar esse intrigante túnel, torna este local ainda hoje indecifrável em termos de funções que teria desempenhado no passado. Não obstante o Rui Ferreira dar argumentos que de certa forma tornam a ideia de uma passagem secreta nesta torre um tanto ao pouco inverosímil, foi este local um dos pontos altos da visita pela aura de mistério que o rodeia.
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Muitas aventuras mais se viveram, não fosse o cartaz do programa do evento ter anunciado à meia-noite uma Grande Aventura Templária. Após o jantar de confraternização – já o nono – o grupo reviveu o ataque que esta cidade sofreu em 1190 da parte do Ya'qub al-Mansur com os seus 400 mil cavaleiros, e ao qual resistiu o “duro” Gualdim Pães. Segredos, confissões, batalhas e recompensas fizeram deste jogo uma arrebatadora aventura onde não faltou que um Quiz Show que testou os conhecimentos dos elementos do grupo, e no qual se inseriu alguns jogos tradicionais Portugueses, e como não poderia deixar de ser nesta cidade mágica de Tomar, tudo muito regado com magias e maldições.
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No dia seguinte rumou o grupo para a Vila de Dornes, onde se encontra uma Torre Templária, quiçá, talvez de tempos ainda mais recuados. Foi o grupo surpreendido pelo o acolhimento que teve pela senhora responsável pela igreja adossada à torre.
Desvendou-se o ouro que os habitantes de Dornes encobriram com uma pintura apressada do órgão – era este forrado com folha de ouro - em virtude das invasões francesas e que apenas à dez anos se voltou a descobrir quando do restauro desse órgão que tem trazido a esta vila gente de vários locais da Europa para nele tocarem.

O blog reúne informalmente um grupo de pessoas que tem vindo a crescer e como tal, espera num próximo evento instalar-se na Quinta da Anunciada Velha, como forma de promover o convívio entre os participantes, não fosse este uma antiga possessão da Ordem de Cristo. “Esta é a minha praia”, assim se referia um dos participantes no fim do encontro sobre o que tinha encontrado no seio deste grupo e evento. De facto são muitos os “marinheiros” que tem vindo desaguar ao Mouchão e que têm repetido a presença nos eventos. Que as águas Santas ou as atormentadas águas do Adamastor tragam mais navegadores a estes eventos, é o desejo do Blog. E que juntos embarquem na defesa, promoção e valorização do património de Tomar. Um bem-haja a todos.
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9/05/2009

A TORRE SINEIRA

ENSAIO - TORRE SINEIRA DA CHAROLA E SÃO CLEMENTE EM LOULÉ
Autoria: Degraconis e João


O que era para ser apenas uma análise iconográfica do quadro da Nossa Senhora dos Anjos, paulatinamente, devido à recolha de informação e troca de ideias, tornou-se num post que não só cumpre com a ideia inicial, mas apresenta também notícias, e até, talvez, ideias ousadas sobre a torre onde outrora se enontrava o quadro em questão. Devido à longa extensão do ensaio dividimo-lo em duas partes. A primeira desenvolve-se em torno da torre e serve de contextualização à segunda parte que retrata única e exclusivamente o quadro citado.
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Uma Cronologia da Charola e da Torre: 1. Selo Templário com o Templo Islâmico Cúpula do Rochedo, no qual talvez a Charola se inspire. 2. Sec. XV. 3. Séc. XVI. 4. Torre com o relógio quadrado 5. Relógio redondo 6. Actualidade.



Esta Torre, anteriormente ocupada pela dita capela, e outrora exercendo funções de torre sineira – talvez a partir do séc. XV – tem sido nas últimas décadas alvo de bastantes especulações, como alias podem perceber pela citação acima. Não conseguimos balizar entre datas precisas estas especulações e desta feita não nos é permitido adivinhar a antiguidade dos rumores sobre uma possível cripta na Charola cujo acesso se situaria no interior da dita capela, ou mesmo através do túmulo que se localiza imediatamente à frente. Os primeiros testemunhos conhecidos publicamente filiam-se nas obras ocorridas na primeira metade do século XX, e reportam-se supostamente a descrições da autoria de homens que trabalharam nas ditas obras. Teriam essas obras sido organizadas em torno de um plano que impunha uma alta rotatividade dos trabalhadores, para que nunca se inteirassem por completo do que se ia descobrindo ou fazendo.

Obras de consolidação na Charola e na Torre. Segundo tradição oral,a estes homens era vedado as verdadeiras intenções das obras

Mas se no excerto acima constamos uma alusão à Capela da Nossa Senhora dos Anjos como local de acesso à eventual cripta, possivelmente consubstanciada em testemunhos reais, também temos testemunho de um outro individuo, de renome e obra publicada sobre Tomar, que nos confirmou a existência de uma cripta, contudo de acesso pelo altar. Esta complexidade de testemunhos, e contraditórios, só na leva a uma conclusão inócua: a especulação é imensa e a verdade talvez nem se esconda nessas descrições.

À semelhança do que acontece em muitos templos,o acesso à cripta talvez se fizesse pelo altar

A existência de criptas nos monumentos românicos é bastante usual, veja-se por essa Europa fora, mas em Portugal são raros e não parecem ter constituído uma prática usual. Talvez o futuro nos reserve algumas surpresas ainda.

Portanto, não recai sobre a igreja de Santa Maria dos Olivais a exclusividade das suspeitas sobre a existência de galerias subterrâneas em Tomar. Compete com a Torre de D. Catarina e com a Cripta da Charola. E se a suposta descoberta de que a Pedra Oblíqua está bem orientada – de acordo com as pedras do púlpito renascentista – pode ter colocado em causa as insistentes descrições de que tinha lá sido colocada pelo regime Salazarista com o intuito de tapar o acesso ao seu piso inferior, não se pense que constituiu só por si uma desconsideração à existência de uma cripta, talvez tenha, sim, adensado o mistério em torno do que ainda estaria escondido por debaixo daquela pedra à tantos séculos.

A pedra oblíqua está de acordo com a direcção das pedras que se encontram debaixo do púlpito do séc. XVI. Indicação de que o chão foi alterado no decorrer dos últimos 500 anos, tendo-se mantido unicamente no devido lugar esta pedra e as que suportam o púlpito . Por esta ser demasiado pesada (ou eventualmente esconder algo) e as outras porque senão teriam que ter desmantelado o púlpito para a sua remoção

A estar certa a teoria que já apresentamos num outro post sobre essa pedra oblíqua, podemos pensar que nem as tropas Napoleónicas acederam à cripta. Teriam no entanto conhecido as restantes? Ainda existia a Capela da Nossa Senhora dos Anjos no século XIX, não tendo ainda a torre conhecido o betão que hoje a reveste internamente. Igual caso se dá com a torre da D. Catarina, visto existir descrições orais de que ainda à 30/40 anos se conseguia ter acesso ao começo do túnel que por lá se iniciava.

Torre de D. Catarina. Segundo consta teria começo nesta torre uma escadaria que conduzia a um túnel de acesso à cidade, ou mesmo à igreja de Santa Maria. Relata-nos J.M.Sousa um desabamento no inicio do sec. 20 junto à Igreja da Graça, e que poderia ter como causa a ruína de uma parte desse túnel

O quadro, motivo deste ensaio, retrata a Nossa Senhora num jardim fechado – Horto Conclusus – com o menino Jesus e uns anjos ao seu redor. Com efeito, a designação da capela deriva da cena retratada nesse quadro que preenchia o retábulo do altar. Ocupava quase toda a parede livre do fundo da capela, a saber que o comprimento dessa parede era aproximadamente de 1,98 mts e o quadro tem 1, 25 mts. De altura a parede atingia 2,60 mts e o quadro 1,65 mts.


Do lado direito de quem entra estaria o túmulo do último mestre da Ordem de Cristo, homem de grandes feitos mas que a determinada altura desapareceu misteriosamente. O próprio Pedro Álvares Seco estranha o desaparecimento de documentação que o refira e “onde pudesse de facto confirmar”. Porém em investigação para o Monunenta Henricinae, o Padre António Brásio, encontrou no arquivo secreto de Vaticano em Roma documentos valiosíssimos de cinco dos quais desvendam o mistério. Tal mestre da Ordem era D. Lopo Dias Sousa.

Túmulo de D. Lopo Dias Sousa
A Imagem do lado esquerdo é do sec. XVII, altura em que estaria no interior da capela da N. S. dos Anjos. Do lado direito temos uma imagem actual do mesmo túmulo e que se encontra no local que o Infante lhe tinha reservado inicialmente, não sendo no entanto o túmulo que o Infante lhe tinha consagrado, visto esse ter sido destruído pelo Padre António de Lisboa e ter sido a seu mando as suas cinzas colocadas num arquete de pedra que se colocou na dita capela. Na parte II daremos notícias mais detalhadas desta capela e do túmulo

Em virtude das obras de consolidação da torre da Charola, essa capela desapareceu, tendo dado lugar a um novo acesso ao topo do edifício, o qual se fazia por meio da escadaria que se inicia no claustro do cemitério. As referências à essa capela são escassas e raras, pelo que deixámos aqui um croqui das dimensões e disposição do seu interior. Posteriormente iremos publicar fotos do que restou da sua demolição.

Foi sugerido em tempos reconstruir a Capela de São Miguel, tendo-se sugerido recorrer ao modelo do tecto de carvalho que pertenceu à capela da N. S. dos Anjos para efeitos de cobertura. Este tecto arrecadado no Convento de Cristo é uma imitação de uma abóbada artesonada. Pintada a azul e ouro, o cruzamento dos ortezões é adornado com florões de talha dourada, estando colocados nos do centro os três emblemas manuelinos: o escudo nacional, a esfera armilar e a Cruz de Cristo. Em jeito de esclarecimento recordamos que a Capela de São Miguel era uma das muitas capelas que existiram junto da Igreja de Santa Maria do Olival e que se demoliu quando se construiu o mercado junto ao cemitério.


Capela de São Miguel antes da demolição e da qual restaram elementos suficientes para a sua reconstrução. Visto não ter na altura já tecto sugeriu-se utilizar como modelo o tecto da Capela de N.S dos Anjos

Constituía a capela da N.S dos Anjos o pavimento térreo da torre da Charola, que, como se sabe, data da construção primitiva, conforme lemos nos anais da UAMOC. A sua transformação fez-se por ocasião das obras do começo do século XVI, altura em foi agraciada com o quadro. Do quadro e do interior da Capela falaremos detalhadamente adiante, ancorando agora as considerações em torno da Torre.

A torre, designada como sineira (e do relógio também), é tida como obra do tempo do Infante D. Henrique, contudo existe algumas reservas quanto a essa atribuição. Reservas que também nós partilhamos. Sabemos pela Crónica da Guiné de Azurara que à Charola foram feitos muitos “acrescentos” e que o primeiro coro alto é de seu “mando”, o qual tem “muitos e ricos ornamentos”. Também o Livro das Escrituras da Ordem de Cristo do séc. XVI nos conta “para esta igreja poder servir de convento de religiosos lhe mandou fazer (…) coro no arco que agora esta, com que tomou dois panos dos dezasseis aos de fronte do arco da capela que está contra poente”. Tinha o coro seis varas de longo e cinco de largo, e a serventia fez-se “no outro pano que está pegado na banda do norte, sendo a respectiva escada lançada pelo grosso da parede”. Também pelo grosso da parede se fazia, e ainda hoje se pode, aceder ao topo da Charola, não obstante o lugar ocupado antigamente pela capela da Nossa Senhora dos Anjos ter agora tal função.

Acesso ao topo da Charola a partir do claustro do Cemitério. Esconde-se este acesso atrás de uma porta verde do lado direito do túmulo do irmão de Vasco da Gama

De facto foram substanciais as obras Henriquinas; não só o coro e possivelmente a torre, mas também os claustros, paços e a capela de São Jorge, esta última com o intuito de preencher um espaço vazio que ficara pelo desencontro geométrico do perímetro da Charola e os referidos Claustros – assim explica cronista em 1542. Também lhe ficou devida a repetição da lápide da fundação para que não acontecesse novo “descuido” com perda da memória a conservar. Para não nos alongarmos muito nesta empresa levada a cabo pelo primeiro Administrador da Ordem de Cristo, de forma a que nos foquemos novamente na torre e posteriormente no seu “recheio”, deixamos então aqui directamente umas transcrições de interesse a este parágrafo.


Descrição de Pedro Álvares de Seco ( Retirado do Monumenta Henricina )


Manuscrito de desconhecido do Séc. XIV ANTT cod 232 (onde consta a imagem mais antiga conhecida da Charola e Torre). Existe nesta descrição uma referência à torre da capela de São Jorge, a qual hoje não existe mas que se pode ver na iluminura do Séc. XIV, sendo possível ver os sinos dessa mesma Torre. O facto dessa torre ter os sinos pode levar-nos a equacionar se seria necessário construir outra torre para esse fim. Curiosamente em nenhuns destes documentos existe referência à construção da Torre Sineira (grande) no tempo do Infante, obra de grande envergadura que merecia destaque face às descritas



Nesta imagem a cinzento pode-se perceber as construções patrocinadas pelo Infante D.Henrique

Antes de prosseguir e estando o leitor já a questionar quem foi Pedro Álvares Seco, visto legar-nos informações valiosíssimas e ser alvo de sistemáticas citações, consagramos-lhe uma súmula biográfica. No Capítulo de 1492 foi determinado copiar num livro todas as escrituras da Ordem, para mais facilmente se lerem e não se perderem. O Frei incumbido dessa tarefa não lhe deu conta e foi Dr. Pedro Álvares Seco, Desembargador e Contador da Ordem de Cristo, incumbido de tal tarefa e outras acrescidas. Viveu onde por coincidência nasceu o Dr. Vieira Guimarães, vulto distinto que de certa forma nos deixou igual trabalho de grande valia. Faleceu em 1599 e jaz em túmulo brasonado no Claustro do Cemitério. É uma figura completamente incontornável para quem estuda estes temas, e as suas descrições tornam-no num dos mais distintos contribuidores de informação sobre a história e monumentos de Tomar. Entre as suas obras publicadas durante muitas dezenas de anos, figuram: Origem dos Templários, a sua extinção, etc; Escrituras de doações, Legados, etc; Escrituras de bens e rendas, etc; Privilégios e franquezas; Livro das Igrejas, padroados, etc…; O Livro das Escrituras, que mede quase um metro de altura, é o maior da Torre do Tombo.

Capa do Livro das Escrituras

Como tivemos oportunidade de referir, a edificação da torre é capaz de ser obra Henriquina, mas a não confirmação absoluta nos documentos a que tivemos acesso, dos quais deixámos-vos alguns aqui, levou-nos a especular sobre o assunto (os documentos apenas falam de uma torre e essa é a de São Jorge). Vamos tentar agora levar-vos a viajar um pouco pelas ideias que fomos desenvolvendo até fixar este texto. Não tivemos oportunidade de ler integralmente os textos dos cronistas e o Livro das Escrituras para confirmar se a torre é Henriquina, mas as tímidas referencias a isso, levou-nos a pensar que talvez não exista a certeza dessa atribuição.

Para os mais incautos, a leitura da Charola com a respectiva Torre Sineira não se apresenta como problemática. É usual ver torres adossadas aos templos cristãos, as quais costumam dar suporte aos sinos que marcavam as horas “litúrgicas” dos dias do homem medieval, contudo, e apesar de existir registos da utilização de sinos e torres desde tempos bastantes recuados, só no séc. XIII se difunde amplamente a sua utilização por via da ordem dos Cistercenses e muitas vezes consistindo apenas numa pequena torre de madeira. Rapidamente se deu a evolução desta torre para outras de maior porte e envergadura, ainda hoje observáveis.

Portanto a torre encostada à Charola, a ser coeva do tempo de Gualdim Paes, não teria a função que a sua designação hoje lhe confere. Atenção que existe uma outra torre sineira ou campanário no castelo, mas a qual não está a ser observada neste ensaio, assim como a torre que ficaria acima da capela de São Jorge encostada à Charola a norte.

Se perde agora o estatuto de sineira, em virtude de estarmos a recuar até às suas primeiras primaveras, não tem que necessariamente perder o estatuto de torre. O termo Torre, do latim turris, designa uma estrutura alta, de arquitectura ou engenharia, em que a altura é bastante superior à largura apresentando uma demarcada verticalidade. Pode ser edificada para diversos fins (como defesa, comemoração ou optimização de espaço) e a sua morfologia tem apresentado algumas variantes ao longo do tempo em que, do mesmo modo, variam os materiais de construção (madeira, pedra, ferro, betão, etc.). De um modo geral pode ser edificada como estrutura autoportante independente ou como parte integrante de um edifício e a sua planta pode variar formalmente; circular, quadrangular ou poligonal.

Teria sido edificada com propósitos defensivos em conjunto com a Torre de Menagem, permitindo fazer vigia pela retaguarda, visto ser mais elevada que o resto da edificação adjacente à qual se encostava? Excluímos objectivos astronómicos como seja o de observar o céu.

A Alcáçova, reservada à Ordem, e que ocupa a zona do monte com cotas mais levadas apresentava dois pólos de forte poder simbólico coroando os dois promontórios mais elevados: o Castelo, na colina Leste, e a Charola românica, na colina Ocidental. Ou seja, poderíamos dizer que a Alcáçova Templária se estendia entre um pólo militar e um pólo religioso, mas este último, pela suas características e posição, poderia também partilhar de funções militares, conferindo à torre privilegiado destaque caso já nesse tempo existisse. Conforme acontece com a torre de menagem, também este se encontra relativamente distante do pano de muralha.

O Castelo no tempo de Gualdim Pais, onde se pode perceber as três cercas e o acesso directo da alcáçova e a Charola.

Todavia, eu e o João não encontrámos muito sentido na sua construção no tempo de Gualdim Pais, mesmo que fosse destinada a metas defensivas. Podia eventualmente ser uma necessidade estrutural de engenharia para de alguma forma dar maior solidez à Charola? Também não encontrámos muito sentido nisso, e apesar de sermos leigos na matéria, concluímos precisamente no contrário. Tiraria consistência à estrutura circular da Charola.

A dada altura entre sonhos e visões pensámos: Haveria ali uma mesquita e seria a torre uma reminiscência desses tempos, dado sabermos que teria existido ali um núcleo islâmico, acreditar nos painéis informativos que se encontram espalhados pelo Convento? Quem me conhece pode calcular a minha expressão facial do quanto de loucura tinha essa ideia, mas não deixámos passar tal ideia ao lado – repugno muitas mas este delírio ficou-nos na cabeça. Só restava investigar o assunto.

De Lisboa a Santarém o rio era demasiado largo e profundo para ser ultrapassado pelos invasores. Da confluência do Zêzere a montante, as margens escarpadas e a dupla fileira de Serras barravam a passagem. Pela zona litoral, era difícil atingir os campos do Mondego, pelo que o verdadeiro perigo – conta-nos o brigadeiro Amorim Rosa – estava, pois, na travessia do Tejo entre Santarém e a confluência do Zêzere, seguida pela penetração pelo vale do velho Naba, facilitada pela via romana. Segundo Manuel Sílvio Alves Conde, tais razões adiantados por Amorim Rosa, justificam a existência de construções militares neste corredor topográfico desde tempos remotos. Na época da Reconquista existiam na região, alem do arruinado castelo de Ceras, diversos torres e atalaias, algumas das quais parecem remontar ao período romano, como seja o de Dornes ( ver Salete da Ponte e Manuel da Silva Guimarães).

Podia Gualdim Pais ter encontrado ainda naquele local as ruínas de uma mesquita, e à semelhança do que era usual naqueles tempos, (re)construir a torre e, quiçá, a Charola dever-lhe a sua forma circular. São poucos os vestígios de torres islâmicas – minaretes – em Portugal, mas temos a sorte de ainda encontrar uma em muito bom estado de conservação em terras do Sul. A igreja de São Clemente em Loulé apresenta uma torre que apesar de ter sofrido alterações é tida como tendo sido em tempos uma torre islâmica.

Torre Sineira da Igreja de São Clemente em Loulé, antiga torre islâmica

De entre os testemunhos da arquitectura árabe na região algarvia aponta­-se a torre como o único elemento sobrevivente da mesquita de Loulé. Embora haja referências ao minarete da mesquita de Mértola e de Moura, “aqui estaremos na presença da única alemara cuja embasamento chegou até aos nossos dias”. Almenara, significa “Sítio onde está luz; lanterna, farol" segundo José Pedro Machado (Vocabulário Português de Origem Árabe). Curiosamente a Charola em tempos idos era composta por uma torre lanterna.

Outra perspectiva da torre da igreja de São Clemente

Existe a ideia de que este elemento muçulmano de Loulé reporta-se ao século XII, e seria obra dos almóadas, servindo para o Muezim chamar os crentes à oração. Lembramos que foram precisamente os Almóadas que tentaram tomar de assalto o castelo de Tomar ainda nos tempos de Gualdim Pais. Que tesouro esconder-se-ia naquele local para que tivessem vindo aos milhares para tentar a reconquista? Segundo a opinião dos historiadores a descrição que se encontra na lápide descritiva deste ataque é assumidamente exagerada, a saber que nunca poderiam ter sido tantas as forças mobilizadas. Mas não seria o tesouro que se guardava na Charola tão importante que levasse os árabes ao limite? Também mais tarde viu-se este bastião Templário cercado por imposição do Bispo de Coimbra, mesmo contra ordens emanadas pelo Vaticano, quando a Companhia de Jesus fez todas as diligências junto ao Papa para tomar esse lugar. Isto logo após morte de D. João III e do Padre António de Lisboa que de certa forma protegiam o Convento. Só Frei Duarte de Araújo, enviado em socorro da Ordem de Cristo conseguiu evitar os esforços herculeanos e malévolos dos Jesuítas para entrarem de imediato na posse administrativa do Convento de Cristo e demais casas. Que força impelia também estes a tentar entrar no complexo Templário? Que esconde este castelo que desencadeou estas descaradas cobiças por parte de tantos interessados? Que nexo existe entre as especulações actuais e as ditas obras de restauro que supostamente serviram de fachada às pesquisas efectuadas por germanófilos na década de trinta? Encare-se estas suposições como um puro devaneio momentâneo e que só surge no encaminhamento e remate deste parágrafo.

Após a Reconquista, a mesquita de Loulé foi adaptada ao culto cristão, tendo-se colocado na abóbada da torre-campanário o brasão de armas português. No século XVI tinha dois sinos grandes e em cima um relógio. Posteriormente sofreu algumas modificações.

Comparação das duas torres. À esquerda a Torre da Charola

Terão tido alguma sensação deja-vu, quer pelas imagens apresentadas quer pela dvção imediatamente atrás feita? De facto são bastantes os pontos de contacto entre uma torre e a outra.

Outro elemento da arquitectura islâmica que sobreviveu encontra-se hoje em Mértola. No local (elevado) teria existido um templo romano, depois paleocristão, e em finais do século XII, foi construída de raiz uma mesquita. Encontra-se hoje no local, sobre essas antigas construções, a igreja matriz de Mértola. O minarete, transformado em torre sineira, seria sacrificado mais tarde, durante o século XVII, quando se levantou a actual torre do campanário. Em meados do século XX, realizaram-se obras que esvaziaram o templo dos acrescentos seiscentistas e setecentistas e que puseram de novo a descoberto o o mirhab, o mimbar e as quatro portas islâmicas.

Igreja matriz de Mértola, cujo interior ainda respeita muitos elementos da antiga mesquita ali existente

Não devemos imaginar o eventual minarete (ou outra torre) ali existente junto à Charola com as mesmas dimensões da actual torre, tanto se pode ter encontrado no local uma torre intacta ou uma torre em ruínas, tanto podia ter uma altura considerável como podia ser menor, tendo visto acrescentos posteriormente pelas mãos dos Cristãos.

O facto da torre estar sigilada – estará em algum lado? - pode ser argumento para esquecer a origem islâmica, mas pode também ser uma precipitação. As marcas de canteiro ou símbolos introduzidos na pedra podem ser simplesmente uma consagração das mesmas ao cristianismo, desmarcando-se de uma construção com raízes em fé herege. Na de Loulé pode-se ver uma lápide com uma cruz inserida na base da torre, como que a dizer que a torre está cristianizada independentemente das suas origens.

É certo que os Árabes não parecem ter-se estabelecido na região de Tomar, e as escavações e outras descobertas fortuitas não revelaram nada tipicamente árabe. A sua presença efectiva deu-se na parte meridional, tendo o espaço entre o Tejo e Douro sido uma espécie de “terra de ninguém”, talvez por ser uma zona de constantes algazarras, mas é certa a presença de comunidades moçárabes na região. Seja como for, minarete islâmico ou torre de outros povos, ficou aqui uma ideia que valerá pelo exercício literário e imaginativo de quem anda às voltas da Charola. Alias, o blog é fértil neste campo, senão veja-se a semelhante ideia que já foi avançada para uma outra torre de Tomar; a que se encontra junto à Igreja de Santa Maria, a qual podia ter sido – na ideia do autor – um antigo templo romano. Encontrou o autor inspiração no monumento romano de Évora para explicar essa remota possibilidade.

No âmbito do projecto de obras previsto para o "Convento de Cristo - Tomar" em 1985 (e 1992) deu-se a descoberta de uma calçada árabe ou moçarabe anterior à construção dos Paços do Infante (Século XV) assim como um esgoto contemporâneo desta calçada, no sentido SE-NW

Aproveitamos o momento, já que se fala de torres e visto termos referido a torre de Dornes, para avançar sinteticamente com uma teoria interpretativa da pedra que faz de umbral à porta de entrada, dado este tema já ter sido discutido nos comentários sem nos termos pronunciado.

Torre de Dornes. Devido à sua posição estratégica pode ter sido uma das torres ou atalaias de tempos remotos que existiam nesta região

Um dos participantes afirma que “representam nada mais nada menos que o ouro (sol) e a prata (lua) que os romanos exploravam no local” e que ao longo dos tempos sempre se representou assim o sol e a lua. Não desconsiderando a opinião do autor, não subscrevemos tal ideia, mas acreditamos tratar-se da representação somente de um desses astros, da Lua.

Não conhecemos representações do Sol iguais à que se encontram na pedra inscritas, mas sabemos que a Lua frequentemente é assim representada, quer através de um círculo cheio quer com o circulo vazio, alias apontam desde logo as duas fases mais importantes da Lua.

Os círculos que se encontram na verga da porta da Torre de Dornes. O do lado esquerdo encontra-se vazio e o do lado direito preenchido. No meio uma espécie de armas e uma espécie de escudo (?)

Referimos que a Torre de Dornes pode ter origens no período de ocupação romana, ou pode aquela pedra ter sido um aproveitamento de ruínas desses tempos, e sendo assim, a representação da lua e da heráldica militar reforça o sentido da representação do astro lunar. isto porque como é sabido, o calendário romano até determinada altura era baseado nas fases da Lua. Quando o calendário romano era exclusivamente lunar, o primeiro dia dos meses (calendas) fazia-se coincidir com a Lua nova (inicio) e o fim com a Lua cheia (idos), apresentando-se esses dois momentos como os mais importantes do calendário romano, existindo ainda um terceiro momento designado por nonas e que correspondia aos crescentes. Posto isto julgamos ter explicado a nossa ideia relativamente aquele enigma.

Para os mais exigentes, dado o autor do comentário do fórum ter aludido ao ouro e prata, deixamos aqui a explicação por uma vertente alquímica. Ou seja, lembramos a importância das fases da lua nas diversas fases da obra alquímica, assim como os instrumentos para a realização da Grande Obra. Nos diversos tratados é a lua representada de semelhante forma. Fica portanto ao vosso critério a apreciação destas duas teorias.

Textos alquímicos medievais, onde podem observar a representação da lua cheia e lua nova

Ainda sobre a Torre da Charola: Temos consciência que não é atípico a construção de torres junto às igrejas e que basta olhar para imagens medievais que retratem o imaginário sobre a Terra Santa para percebermos o quanto eram usuais, e o quanto se podem aproximar da Charola que conhecemos.

Representação de Jerusalém

Infantina ou não, temos várias notícias sobre a Torre da Charola desde o tempo do Infante, assim como sobre a Capela que se albergava no seu interior. Podem estas auxiliar-nos a desvendar o mistério da Cripta, pelo que iremos as analisar à medida que as vamos relatando.

Aproveitamos para ponto de partida o artigo escrito em 1958 pelo Major Eugénio Sobreiro de Figueiredo e Silva, intitulado “ Convento de Cristo nos fins do séc. XIX e nos princípios do séc. XX” que conta-nos o seguinte:


Na ideia do Major teria a torre sido esventrada a partir de baixo, tal como já se discutiu em relação à sala do capítulo por causa das suas datações, tendo-se aberto a capela da Nossa Senhora dos Anjos por entre a maciça alvenaria. É bastante inverosímil que assim seja, até porque iria apresentar problemas estruturais, e a necessidade defensiva não tem fundamento pois seria ineficaz. A simples construção de uns balcões cumpriria essa função, visto a torre não ter acessos ao exterior para fazer algum tipo de defesa intermédia. A ser verdade o que está transcrito, temos que afastar a ideia de existir uma cripta com acesso a partir da Capela. Primeiro porque não existia capela inicialmente, segundo porque era a torre maciça. De qualquer forma não fazemos muita fé na ideia apresentada.

Numa segunda fase abre-se uma outra dependência que teria como utilidade fazer de Cartório. Pois bem, o espaço é pequeno e “numa igreja duvido que o Príncipe fizesse tão vil uso de uma sala”, quando existia espaços suficientes no Castelo para funções cartoriais, que como se sabe, obriga o armazenamento de bastantes Tombos. A existência de uma dependência por cima da Capela é factual mas só lhe podemos imaginar outro tipo de utilização. Esta teria “comunicação sobre a galilé exterior da antiga porta da Charola” com os espaços do Claustros, via Capela de São Jorge que se situa simetricamente à torre, e podia essa dependência eventualmente ter sido simplesmente “uma frisa ou camarote privativo de acesso exclusivo, via claustro… para assistir à missa dos freires”, ou então uma sala que daria guarida aos paramentos e alfaias litúrgicas, se pensarmos que até estariam bem guardadas nesse local. (sobre o cartório julgo já o terem identificado pela leitura dos textos que inserimos neste ensaio).

Porta na actualidade da Capela de Nossa Senhora dos Anjos situada no vão da torre Sineira

Para concluir este trecho só nos resta dizer que as torres sineiras costumam ter escadas (mesmo de madeira) ou serem ocas, procedendo-se à toca dos sinos por meio de cordas que a percorrem de alto a baixo, não obstante na ideia do Major ela ter sido maciça desde o séc. XII, fixando então ai a sua origem, porque senão a hipótese defensiva nem se metia em questão. Nunca mais houve perigo que justificasse tão majestosa construção, e levar a cabo empresa de tão grande envergadura por questões puramente estéticas parece não ter cabimento.

O campanário que se revestiu de grande importância ao longo da história, não é um elemento primitivo da arquitectura cristã – como já dissemos – e podemos verificar isso pelas torres de Ravena e da Síria que não se destinavam a conter sinos. Este facto permite negar imediatamente a tese de só terem surgido com base no seu “utilitarismo”, mas de igual forma podemos rejeitar a tese dos partidários de que estas obedeciam apenas a funções “puramente estéticas”. Só a ignorância da verdadeira concepção da arte sagrada tradicional pode pensar que existe gratuitidade e fantasia pura nas obras deste tipo.

Independentemente de a torre ter sido construída para conter os sinos, a torre partilha de uma simbólica que se reveste de grande significado: um sentido cósmico e ascensional, porquanto as torres, com a pirâmide e a flecha que as encimam lança à conquista do céu e torna-se uma via a seguir; liga a terra aos céus, com efeito, Deus aos Homens.


Voltando ao major:


O sobejamente conhecido construtor de Tomar Raul Marques da Graça é uma peça fundamental de todo o mistério da cripta. Teria sido uma das pessoa que teve a acesso à suposta cripta da Charola por meio da capela da torre, pois foi o empreiteiro das obras que não permitiam a permanência de trabalhadores em Tomar por muito tempo, obrigando a voltarem a casa em tempo útil de não se aperceberem do que se andava a pesquisar. Aliás estas obras seriam uma necessidade permente em virtude das sondagens, pesquisas e escavações que se foram efectuando com a orientação de um alemão que disfarçadamente trabalhava na fábrica de papel do Prado, e que meteram em perigo a torre. O próprio filme do CESDIES que podemos ver no youtube partilha da ideia de que as pesquisas colocaram a torre em perigo (contudo deve ter sido apenas conversa circunstancial de quem faz uma visita guiada a pessoas ávidas por ouvir estas coisas). Certo é que existe esta ideia entre os fascinados pelos mistérios Tomarenses.


Portanto o Major imagina a torre maciça e pensa que o esventramento de dois compartimentos que ficaram aguentar todo o peso de uma alvenaria a montante levou a uma situação de descaimento desta, que tendia a trazer ou arrancar uma parte da Charola. De facto esta situação é real, excepção se faça à parte maciça, e foi este o verdadeiro motivo das obras. A comprovar que a necessária intervenção na torre é produto de uma situação real, e com origem no natural desgaste da construção, e não por culpa das supostas pesquisas levadas a cabo pelos alemães, apresentamos relatório de 1752 que já nessa altura conclui por uma séria preocupação com a torre.

“Apontamentos para as redeficaçõens das obras de que preciza o Real Convento da Ordem de Cristo na Vila de Thomar, feitos pelo architecto das Ordens (…) seguindo em tudo as ordens de Sua Magestade, da Sua Real Rezolução de 24 de Março do prezente ano:

1. Na igreja se preciza (…)
2. Como a torre que existe he antiquicima, e por pequena, nella não tem os sinos todos, estando o principal delles em parte incompetente, de sorte que na abodeda da igreja se exprimenta algum extremecimento e abalo quando delles se uza; seria conveniente por ivitar neste lugar ruína, de minha ponderação se fizeçe em outro que a propozito se acha no adro da dita igreja, torre suficiente para os sinos que tem, para cujo fim já tem bastante proção de paredes para, ella feita, e com suave despeza se evitaria a ruína que pode acontecer na parte em que estão, e poderá pouco mais ou menos sendo obra liza com duas bancadas sinerias e cupola, seis ate sette contos de reis.
3. (…)”

Esta consideração certifica a degradação a que a torre estava a chegar colocando em causa a Charola, pelo que as especulações em torno das pesquisas germânicas não são fundamentadas. Todavia podem essas pesquisas ter tido lugar na data das obras mas definitivamente não danificaram o que já estava em estado de ruína há muito tempo.

Destas intervenções no sec. XVIII resultou a transferência de alguma carga que sobrecarregava a torre, nomeadamente a deslocação do sino grande designado como Baleia, para uma nova construção acoplada no piso superior da Charola e que se encontra em cima da antiga porta de serventia templária. Talvez tivesse sido nesta altura que surgiram os vários suportes de sinos que hoje podemos ver no topa da Charola.


Aproveitando o momento, falaremos agora um pouco sobre os sinos que adornaram e adornam a Charola, ou mesmo que se encontram espalhados pela cidade de Tomar.

No ano de 1529 “foi tomado um pouco de cobre del Rei Nosso Senhor D. João III (…) na Dinamarca e Lubeque, pelos luteranos, que a esse tempo tinha guerra com o seu Rei; e pagaram o dito cobre em 12 sinos (…) e vieram os ditos a esta cidade de Lisboa (…)”. Após uma tentativa de devolução dos sinos para que retomassem o seu local, acabaram este por permanecer em Portugal, sob ameaça de a serem devolvidos seriam derretidos para financiar munições. Alguns foram entregues a igrejas que não vale a pena agora referir mas “ e os outros nove sinos mandou Sua Alateza depositar pelo dito modo no Convento de Tomar e nas igrejas da dita Vila, a requerimento do Padre Frei António de Lisboa (…) mandou escrever isto neste livro, a 5 de Outubro de 1532.”


É por esta altura (1523) que se dá mudança do relógio que estava na Porta do Sol do Castelo para a torre da igreja de São João Baptista por meio de alvará de D. João III. Mas que relógio é este? Lembramos-vos que existem dois na dita torre.

E os sinos? Teria a Igreja de Santa Maria sido agraciada com algum dos nove? A resposta encontra-se em cima da Torre. Dá-se por iniciada agora a demanda aos sinos Dinamarqueses.

Os sinos da Igreja de Santa Maria. Alguns destes sinos possuem inscrições que permitem adivinhar a sua origem

Se até determinado período histórico os sinos desempenharam o papel de relógio ditando as diversas fases do dia, encontramos mais tarde verdadeiros relógios a cumprir semelhante tarefa, ao qual se juntava as badalas do sino que ficava na proximidade. Foram diversos os relógios que se fixaram na torre da Charola, um dos quais, obra de um frei conventual e que foi retirado aquando das obras de consolidação da torre. Segundo consta, era todo de ferro forjado, e por desgaste das peças já não funcionava na altura. Quem tiver oportunidade se subir até ao topo da Charola pelas escadas da torre, pode ver na parede as horas marcadas e que teriam correspondência com o relógio que se encontrava no mesmo local do lado exterior.

Não se fique com a ideia de que os sinos e os relógios colocados nas torres altas das igrejas obedeciam a uma função puramente utilitária – como já referido – como seja a de auxiliar na definição das horas do dia. O homem medieval via nesses artefactos e na sua função aspectos sagrados. O sino e o relógio, que só por estarem em lugar santo – na torre da igreja – já estavam consagrados a missão divina, pois sacralizavam os diversos momentos diários, assim como o próprio som emitido pelo badalar dos sinos era um força contra as hostes demoníacas, tal como os guizos que muitas vezes vemos na arte sacra. O barulho afasta o mal. A utilização de relógios como aspectos simbólicos de destaque também encontra lugar nas representações da arte profana. É usual ver os monarcas representados com relógios por perto. O relógio era visto como uma máquina perfeita e que se apropriava do tempo através da sua medição, e nesse sentido, por analogia, os monarcas eram o motor de uma sociedade na qual ditavam aos seus subordinados as suas tarefas e funções de forma exemplar.

Não existe certeza quanto à cripta da Charola, quanto mais à sua entrada, contudo, fazendo-se pelo altar ou pela capela, conhecemos descrição que dá conta dum guardião que encontrava-se a protege-la, logo após a descida da escadaria de acesso – julgamos este ser uma estátua – e que nessa dependência inferior se encontrava uma conjunto monumental de arcas. O que escondiam não sabemos pelo que deixamos o leitor imaginar. Contudo deixamos imagem dos dezanove sarcófagos e dezasseis cofres de metal que Roger Lhomoy diz ter encontrado em 1946 quando fez pesquisas no subsolo da torre de Menagem de Gisors, não obstante talvez se ter tratado apenas da imaginação de quem vigiava o castelo à muitos anos. Nunca se obteve confirmação de tal sala nem espólio.



Gisors. Curiosamente também esta torre, na base da qual estaria esta cripta, tem a designação de Catarina. O Ministério da Cultura Francês fez esforços por tentar confirmar as descrições do Lhomoy mas não teve resultados positivos, tendo-se então após essas tentativas, “enchido o local de betão em virtude das pesquisas terem colocado em causa a torre. Não é o que se diz também das obras da Charola e da Torre? E esta hein?


Dito isto só nos resta entrar na Torre, e seja Alah ou Deus Pai acompanhar-nos, certo é que iremos encontrar-nos de seguida com os Anjos, não fosse a torre à semelhança destes, um mediador entre o céu e a terra, ou mesmo entre o céu e o inferno se atendermos alguns rumores.

COMENTÁRIOS NO TÓPICO "A CHAROLA DO CONVENTO DE CRISTO" DO FORUM

(a partir da pág 3)

RAINHA DOS CÉUS

ANÁLISE ICONOGRÁFICA
Autoria: ----


Neste espaço iremos publicar brevemente uma análise iconográfica do quadro que se encontrava no vão da Torre Sineira da Charola. Em virtude da complexidade iconográfica do quadro e da problemática que levanta, optámos por lhe dedicar separadamente um post por forma a não tornar o primeiro post demasiado extenso, pois este também nos obrigou a umas tantas páginas a mais do que julgámos inicialmente lhe consagrar.
S

Radiografia de um detalhe do quadro

7/09/2009

8ªCONFRATERNIZAÇÃO DO BLOG

7/03/2009

PORTA DO HADES

No rasto das misteriosas caves da Charola Templária
Autoria: SCALIBURIS

O texto que se segue foi enviado pelo Scaliburis, um velho amigo do blog, no âmbito de uma conversa que se vinha desenvolvendo no fórum, tendo-lhe sido lançado o repto de ensaiar um texto para publicação de sua autoria. Independentemente da polémica que possa gerar e das questões que levanta, visto ser um tema delicado, somos concordantes em o publicar, destacando desde já o testemunho inédito de um “antigo” e o desenho que dá-nos a conhecer.

Esta história foi-me contada no mesmo local, em duas ocasiões distintas e por pessoas diferentes. Do lugar de Valado dos Frades, hoje Vila, nenhum dos anciãos cuja identidade omito em respeito pela sua memória, se encontra já entre nós. Assim, serei eu a suportar a dúvida do que lhes vou contar.

Foi com enorme admiração que vi publicada no fórum Thomar a foto que identifico com esta história. E friso aqui bem, mais uma vez, que até haver provas do que aqui se conta, não passará de uma história contada por gente antiga.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx Porta do Sangue


Uma abertura que se encontra do lado poente da porta do Sangue, na muralha sul do castelo de Thomar. Em cima a servir de verga, a pedra da suposta porta de Hades, o deus do mundo subterrâneo. É visível a serpente com uma cabeça de dragão de cada lado.

Costumava ir passar uns tempos, nos anos 90, em Maiorga, a casa de um amigo do meu sogro, que tinha sido maquinista dos caminhos-de-ferro em Moçambique, na era colonial. Juntávamo-nos todos e íamos a Valado dos Frades, às festas de São Sebastião e da chouriça.

Como sempre, sondava os velhotes lá do sítio para saber sobre as lendas e tradições da região, vício que, reconheço, me acompanha sempre que me desloco a qualquer lugar. São sem dúvida os nossos melhores “livros” de estudo. Refiro-me à tradição oral, que infelizmente, está em vias de extinção. Palavra puxa palavra e das histórias de Valado dos Frades, passando pelas de Alcobaça, fomos parar às de Thomar.


Pelourinho de Maiorga, vendo-se em segundo plano a capela com portal manuelino. Um excelente trabalho de limpeza e recuperação.

Contou-me este velhote que, “ …se dizia antigamente, usar-se contratar no Valado, mestres pedreiros e carpinteiros para trabalhar nas obras do castelo de Thomar. Isto há muitas gerações atrás. Um destes mestres tinha por costume, quando voltava a casa, fazer o registo das transformações que se operavam no interior do castelo pois sabia que assim se iria repetir, até muito do que era antigo ficar irreconhecível ou até desaparecer.
Uma das obras que o impressionava mais era a que desfigurava a bonita e intrigante calçada árabe que os antigos frades do Templo usavam nas suas cerimónias e que conduzia directamente à cave da Igreja do Templo.
Diziam os frades do castelo que Dom Gualdim Paes tinha trazido do Oriente os planos da construção da Igreja que imitava a do Santo Sepulcro e que tinha mandado fazer a calçada ao estilo árabe pois ambas faziam parte da tradição arquitectónica dos islamitas, e serviam não só para as cerimónias religiosas mas também para as investiduras dos novos cavaleiros. Diziam ainda que o Mestre Templário tinha trazido também algumas relíquias e muitos pergaminhos que guardava numa lapa muito antiga, escavada na rocha em forma de sala que havia no lado direito da entrada da cave e que tinha uma porta a que chamavam a porta de Hades e que quando dela falavam se benziam muitas vezes. Essa porta assentava em cantaria de pedra muito antiga cujas colunas laterais tinham esculpido, um dragão de cada lado que chegavam acima e olhavam uma serpente alada no topo.
Reza a tradição que só lá entrava um velho judeu para trabalhar na tradução desses pergaminhos e que contava já, fruto do seu trabalho, vários volumes manuscritos traduzidos para o latim.
Muito tempo depois desmancharam as cantarias e taparam tudo incluindo grande parte da calçada árabe e as pedras trabalhadas nunca mais foram vistas.
Assim o mestre pedreiro deixou em registo, a descrição do seu trabalho até que o tempo se encarregou de as ocultar. Dizem que em 1936, o padre da freguesia do Valado deitou para o fogo um livro velho que tinha encontrado por detrás do retábulo da capela de S. Sebastião e que talvez fosse o livro de registos do mestre pedreiro. Mas as histórias já se espalhavam há muito, através da tradição oral do povo.



Parte do desenho que me forneceram em relação à "nossa porta".A parte de baixo do desenho foi cortada deliberadamente pois contém informação que me pediram para não reproduzir, por não ser oportuno.


Verdade? Invenção do povo? Um dia, quando houver vontade e coragem de repor o velho castelo como era ao tempo do mestre Templário Dom Gualdim Paes, talvez se confirme a veracidade destes contadores de memórias.

Será que a velha pedra que se encontra ao lado da porta do Sangue é uma réplica ou é a que fazia parte da enigmática porta de Hades, o deus dos subterrâneos? As duas cabeças de dragão estão lá, ambas guardando a serpente alada que os sábios do mundo antigo diziam representar o conhecimento, a sabedoria.

Urge recuperar esta pedra e devolver-lhe a dignidade roubada por quem a colocou à saída de um escoadouro.

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Velha calçada árabe que integraria o acesso à cave da Charola Templária do castelo de Thomar

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Sobre o desenho apresentado:

Quem me forneceu o desenho garante-me que um seu familiar o executou aquando de uma exploração que efectuou aos subterrâneos do castelo em 1918. É este senhor que detém a descripção desta aventura do seu antepassado e que mo deu a conhecer. Pode-se ler nessa descripção que partes da calçada, da praceta e dos acessos à cave da charola eram visíveis nestes subterrâneos. O desenho da porta foi executado na altura e descrito como uma segunda porta igual à que foi desmontada, atirada para o entulho e cuja verga acabou no local que sabemos.Pode ser difícil de acreditar mas durante muito tempo, quando o castelo esteve em ruinas e abandonado, foi alvo de explorações deste género por parte de particulares, existindo alguns registos coincidentes quanto ao que existe do que foi deixado da época Templária.Eu próprio, em tempos, por lá andei e digo-te que é um mundo.

Muita gente foi ameaçada e alguns até foram molestados principalmente nos anos 40 pelos que foram incumbidos da reconstrução do património em Portugal e que se tornou....

COMENTÁRIOS NO TÓPICO "DO CASTELO E DO CONVENTO DE CRISTO" DO FORUM

(a partir da página 8)

5/16/2009

VISITA CULTURAL

QUINTA DA REGALEIRA
S

4/21/2009

O MISTÉRIO DAS PEDRAS DE SANTA MARIA

Uma foto inédita da Torre
Autoria: João e Degraconis

“Nas obras de reparação dos rebocos exteriores da torre sineira da igreja de Santa Maria dos Olivais nos anos 30, puseram a descoberto catorze pedras de secção rectangular, embutidas nas paredes - quatro em cada uma das faces maiores e três em cada uma das menores - parecendo restos de cachorros que houvessem sido propositadamente cortados”

São estas as notícias que podemos recolher nos anais da UAMOC e que o leitor já deve ter lido num post anterior. Contudo talvez ainda não as tenha identificado, apesar de visíveis nos dias de hoje.

Antes(dir) e depois (esq) de descobertas. Acima da porta vê-se as 4 pedras (esq)

Vista lateral onde consta 3 pedras.

Após descobertas por debaixo do reboco que as encobriam adiantou-se a hipótese de em tempos terem servido de apoio a andaimes de madeira com o intuito de aumentar o poder defensivo das torre militar como era usual na idade média. A sua baixa altitude em relação ao solo fez essa ideia ficar de parte.

Igualmente parece não ter pertencido à galilé que existia junto a Santa Maria, visto a descrição conhecida decorrente da visitação de 1510, a situar na proximidade do pórtico da igreja. Porém julgamos que a descoberta dessas pedras (cachorros cortados) teve repercussões na imaginação de quem fez o desenho do esboço que abaixo apresentamos. Por conseguinte, serviriam esses cachorros de suporte ao telhado.

Revista O Século de 13 de Janeiro de 1932
Tentativa de reconstituição. Como podem ver o telhado confina no local dos cachorros descobertos naquele período.

Parece-nos a nós e aos ilustres da UAMOC este desenho ser um ideia sem fundamento, até porque a altura é excessiva para esses efeitos.

Oscilantes, somos da opinião de que esses cachorros podiam ter tido funções relacionadas com um eventual adarve que rodeasse a torre em virtude de estarem muito próximos do topo da torre no tempo dos templários, a ser desse tempo a origem da fortificação. Lembramos que esta só se viu acrescentada com os seus últimos dois pisos no tempo de D. João III ou dos Filipes.

Aliás, existe opiniões de que a actual porta parece ter sido antes uma janela, assim nos diz J.M.A Sousa. Somos mais inclinados a dizer ter sido a entrada do edifício, que à semelhança do que acontece em Almourol e na torre de menagem do castelo, se encontrava bastante acima da cota da soleira, só acessível por meios amovíveis, de forma a que invasores se vissem em dificuldades para aceder ao seu interior. Portanto não será descabido pensar que em tempos idos estaria o solo abaixo do que está hoje, mesmo não atingindo o nível da porta da igreja (a profundidade dos sepultamentos encontrados no perímetro deve-nos poder dar uma ideia quanto a esse nível).

Correm por Tomar alguns rumores de que pode a torre já ter tido um piso inferior, ou mesmo ainda existir secretamente. Conforme já nos foi relatado por fontes inquestionáveis, existe uma sala inferior e interna na torre de menagem do castelo templário, à qual se pode aceder unicamente a partir do piso onde se encontra a pedra que relata a fundação do castelo em 1 de Março. Teria esta semelhante esquema?

O livro de J.M.Sousa “Noticia descriptiva e histórica da cidade de Thomar” em 1903 descreve de que “corre em Thomar por tradicção que entre o castelo e a egreja de Santa Maria tinham os templários uma via subterrânea que ia desembocar n’aquella torre; outros dizem que dentro da egreja”.

A título de curiosidade também informamos que verificou-se numa sondagem às fundações da torre na década de oitenta, as paredes terem uma orientação ligeiramente diferente da sua base. Pensa-se que podem estas estarem ortogonalmente orientadas como as estruturas romanas da zona.

Terminados estes preliminares confessamos não serem estas as pedras que constituem a razão maior deste ensaio. São outras. E se o ilustrador se serviu dessas pedras-cachorros para (re)construir um alpendre, imaginando-o, servimo-nos nós de outras para "edificar" um castelo.

São muitas as descrições antigas que todos nós já devemos ter lido, mas infelizmente nem sempre conseguimos as ver porque entretanto houve alterações e não se chegou a tirar fotografias. Por vezes quando pensamos que ficou perdido o testemunho ilustrativo, miraculosamente surge uma gravura ou mesmo uma foto. Foi o que aconteceu. (mas ainda não é a foto seguinte)

Nesta foto são visíveis as pedras no chão mas poderiam estar relacionadas com as obras. Pode-se também já ver os “cachorros” cortados.

Esta foto que está acessível nos arquivos da DGEMN apresenta umas estranhas pedras no chão junto à porta da torre sineira, porém e visto o cenário ser de obra julgámos serem essas, eventualmente, material relacionado com a intervenção que estava a decorrer. O assunto ficou encerrado por ai.

Todavia, a semana passada o João enviou-me uma das suas fotos para ilustrar um post que se iria fazer dedicado à evolução da Igreja de Santa Maria dos Olivais ao longo dos tempos, dado estar agora renovada e com novas feições. Nessa foto constatamos novamente o aparecimento dessas mesmas pedras, e sendo essa foto bastante anterior às obras que a foto acima mostra, deduzimos que as pedras eram uma presença antiga junto à torre.


Foto inédita onde se verifica a presença das pedras junto à entrada. A perspectiva do edifício também é única.
Repare-se também que uma das janelas no segundo piso ainda está fechada. As fotos da DGEMN não chegam a ter datas tão recuadas. (foto cedida pelo João)

Detalhe das pedras e pela primeira vez conseguimos ver a porta da dependência do lado esquerdo.

Não só as encontramos na torre mas também junto à janela da igreja, mesmo ao lado da antiga cruz. Já as conhecíamos mas pouca importância demos à sua presença. Agora, e fazendo parte integrante de um conjunto mais vasto, obrigava-nos a repensar que pedras seriam essas. Servirem de assentos pareciam-nos uma função demasiada simples para justificar a sua presença, até porque são bastantes as que se encontram no envasamento da torre.

As pedras junto ao adro e o Sr. Alvazil com o livro das sentenças.

Estariam estas pedras relacionadas com o alpendre publicado na revista "O Século"? A ideia desse alpendre é descabida e como tal não as podemos pensar como parte desse conjunto. Seriam no entanto resultado da desmontagem da antiga galilé que sabíamos ter existido? Ou mesmo da cadeira de pedra que uma memória antiga diz ter existido naquele local junto à fachada onde se ia sentar o alvazil ou o juiz nomeado pelo mestre dos templários para administrar as justiças?

Antes de prosseguirmos para as conclusões a que chegámos vamos inteirarmo-nos do discurso de alguns autores para perceber que ideia se tinha dessa edificação antes do século XX.

“Defronte d’esta egreja há uma torre quadrangular, onde estão collocados os sinos; não foi este o seu destino primitivo, nem se pode bem saber qual elle fosse, assim como não é fácil determinar a epocha da sua construção, a porta parece que foi uma janela; se assim é, os seus fundamentos devem estar ao nível da egreja e n´este caso remonta à epocha dos romanos. Seria então um reducto de qualquer fortaleza?(…) poderia ser uma dependência do convento (…) então será obra dos Templários? Com que fim?” (J.M.Sousa pag 180)

Após visualizarmos vezes sem conta essas peculiares pedras durante esta semana, a páginas tantas, começamos a pensar que a sua forma perfeita e a sua disposição corrida paralela à parede da torre lembrava uma espécie de ameias. Mas estas não costumam estar no chão mas sim no topo das fortificações.

A boa memória e os amplos documentos que possuímos confirmaram de que de facto estávamos diante as antigas ameias da torre, ou pelo menos o que se pensava ser. Foi extasiante pensar que as tínhamos descoberto e tal não era fruto da nossa fantasia.


Esta história faz-nos lembrar a novela do coro alto que existia em Santa Maria. Faz anos que andamos a tentar obter fotografia ou ilustração das descrições que conhecemos mas ainda não conseguimos nos satisfazer com o que já se obteve. Das ameias dispostas junto à torre podemos agora ler e ver em pleno. Dúvidas ou imagens obscuras sobre o que o Vilhena nos descrevia são agora uma visão clara.

Na continuação do texto poderemos ler sobre a sua possível função:


A foto é inédita, não a conhecemos em nenhuma publicação nem no acervo fotográfico da DGEMN, dá-nos uma perspectiva da igreja e da torre até então desconhecida. Conseguimos com bastante nitidez ver a porta de uma divisão que julgamos ter servido para arrumos, e que posteriormente foi demolida, mantendo-se no entanto ainda por muitos anos as restantes edificações anexas que só serão demolidas na intervenção da década de trinta. Permite de igual forma, ver de perto o espaço vazio onde se mais tarde se descobriu a porta manuelina que também só no séc. XX se meteu a descoberto.

Não é oportuno publicar agora uma outra foto, ainda mais antiga do que esta e que julgamos ser do período das obras de 1889 ou anterior ainda, mas podemos desde já adiantar-vos que este espaço vazio foi em tempos coberto por um alpendre. Trata-se talvez da foto mais antiga que conhecemos e que aproveitaremos para especular sobre o antigo coro alto de Santa Maria.

Foto antiga da DGEMN anterior às obras do séc. XX mas onde já não consta a dita dependência nem as pedras nem o tal alpendre da nossa outra foto. O muro do lado direito também já não está completo. Curiosamente a cruz também desapareceu. Desta última daremos paradeiro logo que essa “caça” termine.

Será que estas pedras são parte do conjunto?
Este muro encobre uma das bases da antiga galilé, hoje já visível.

Porta Manuelina


Bem longe já vai esta digressão pelo passado. Não sabemos se de facto aquelas pedras podem ter sido as ameias da torre e fazemos algumas reservas quanto a isso, mas seja como for, serve este post de ilustração ao que os nossos antepassados viam nesses curiosos e intrigantes assentos, já que se limitaram a descreve-los no Archivo Picttoresco sem nos darem possibilidade de os ver. Sabiam lá eles que iriam desaparecer passado meio século.

Santa Teresa D'ávila que assumiu Santa Maria como sua mãe adoptiva, inspirada nos livros de cavalaria, imagina a morada da Alma ou do Esposo (Cristo) como um Castelo Interior, alias título de uma das sua obras literárias. Esperamos com a descoberta das Ameias ter fortalecido a imagem que todos temos de Santa Maria, Mãe dos Cavaleiros Guardiães. Com o Altar já vos presenteamos num outro post. A Cruz brevemente. Tudo a bem da construção do Templo original, quiçá interior também.

COMENTARIOS NO TÓPICO "DO TEMPLO DE SANTA MARIA" DO FORUM

UMA CARTA DO FILÓSOFO DESCONHECIDO

O blog recebeu uma carta de um anónimo sem qualquer possibilidade de saber a sua proveniência. Trata-se de um texto manuscrito cujo conteúdo se apresenta como polémico e de difícil compreensão. Não temos dúvidas quanto ao seu valor e não deixaremos de o publicar apesar de algumas vozes dissonantes aconselhar-nos a não o fazer. Cumpriremos com a vontade do intrigante remetente que nos solicita que a publicação do texto seja feita no dia de São Saturno.
(Será neste espaço inserido o texto)