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5/17/2012

4/30/2012

SEMINÁRIO THOMAR ARQUEOLÓGICO

2 & 3 de Junho | Inscrições Limitadas
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Cartaz oficial
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A construção e o conhecimento da História de Tomar nos últimos séculos não se cingiram apenas a pesquisas nos velhos códices que chegaram até aos dias de hoje. Impulsionados, de principio, pelo fervoroso espírito religioso – os Santos Mártires - várias foram as campanhas de intervenção arqueológica realizadas no concelho de Tomar ao longo dos últimos séculos com o intuito de registar vestígios que pudessem contribuir para a sua historiografia, quer comprovando-a, quer reescrevendo-a, de forma a conferir a esta cidade a devida dimensão histórica de que se revestiu no passado. 

Com efeito, o tema proposto para o 14º evento do Cethomar – Círculo de Estudos de Thomar, é uma abordagem da história de Tomar sob uma perspectiva arqueológica, alicerçada em convidados que estiveram envolvidos em diversas campanhas de investigação nas últimas décadas. 

Pretende-se com este evento, o qual se assume como um Seminário, dar a conhecer, não somente o que resultou das escavações dos períodos anteriores, mas também o contributo que as mais recentes campanhas trouxeram para o conhecimento da sua história, o que permitiu à cidade de Tomar, reencontrar-se com o seu passado, o qual recua muito além da nacionalidade e subsequente instalação da Ordem do Templo e colonatos cristãos.

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2/22/2012

O PEGO DE SANTA IRIA - PARTE II

Do artigo “Santa Iria de Thomar” 
Parte I - Parte II

Iremos ao longo deste artigo fazer uma digressão pelos diversos textos que recolhemos durante as pesquisas que levámos a cabo no encalço das mais antigas descrições que abordassem a Cisterna de Santa Iria (também conhecida como Pego), na altura com o intuito de apresentar um vídeo sobre esse local e que em simultâneo deixasse prespassar ao espectador o sentimento do qual sempre se revestiu e que pode considerar-se estar na génese da própria lenda de Santa Iria.


Como já havemos dito, elegemos as descrições de Frei Isidoro de Barreira para contextualizar o vídeo historicamente, não porque fossem as mais remotas, mas sim porque seriam as que melhor condensavam todo o espírito que presidiu durante séculos o culto e veneração que o povo lhe dedicava.

Não nos querendo repetir, voltamos apenas a dizer que Vieira Guimarães foi um precioso guia nesta viagem ao passado pela compilação de textos que reuniu, apesar de serem apenas excertos e nem sempre apresentarem as passagens que nos interessavam conhecer. De igual forma mas a um outro nível, Pe. Miguel de Oliveira e Pe. Avelino de Jesus Costa foram os mais ilustres eruditos acompanhar-nos nesta incursão na literatura hagiográfica medieval, assim como todo o trabalho que temos vindo a desenvolver neste blog e nos tem levado a conhecer cada vez melhor as obras onde sabíamos poder encontrar seguramente referências de interesse. Luís Mata, não sendo um timoneiro nesta viagem, foi uma agradável surpresa a meio do caminho, visto tecer algumas considerações sobre os trabalhos publicados pelos dois eruditos citados, sem contudo trazer continuidade ao trabalho de ambos apresenta-nos uma nova visão quanto à questão etimológica das personagens da lenda, já abordada, mas agora numa tendência diversa. Outros nos acompanharam nesta viagem mas foram estes os vultos que cobriram durante bastante tempo as nossas mesas-de-cabeceira, e obviamente, as obras que passaremos adiante a citar.


A mais antiga referência litúrgica a Santa Iria que se conhece encontra-se no calendário de um livro litúrgico da catedral de Leão conhecido como Antifonário (colectânea de cânticos litúrgicos), do ano de 1066/1069, e onde se regista para a data de 20 de Outubro: “Sancte Erene Virginis in Scallabi Castro”. Embora seja uma referência muito sumária, reveste-se de sublinhada importância por indicar um dos focos de culto a Santa Iria: Santarém, e que até à publicação da comunicação “Santa Iria e Santarém” por Pe. Miguel de Oliveira à Academia Portuguesa da História em 1963 nunca ninguém tinha colocado em causa o topónimo Santarém derivar do nome da Santa (Sancta Herene. Será este assunto desenvolvido em capítulo avançado).


Página do calendário do Antifonário onde se lê “Sce erene urg in scallabi castro”
 no dia 20 de Outubro (falta-lhe os travessões)

Este livro não foi recolhido por Vieira Guimarães no seu “Excerto documental”, mas Pe. Miguel cita-o e posteriormente Pe. Avelino no seu artigo “Santa Iria e Santarém – Revisão de um problema hagiográfico e toponímico”, inserindo este, uma foto do fólio do Antifonário onde se verifica a legenda citada.

Quisemos por acaso ver mais do livro – o qual não está facilmente acessível – e fomos surpreendidos com um santo cinocéfalo a emoldurar uma outra página. Trata-se sem muita margem para dúvida de um São Cristóvão representado conforme o era no cristianismo bizantino, visto estar colocado na página referente a Julho, data em que era celebrado no ocidente (no oriente é celebrado em Maio. Não queremos desenvolver o assunto mas há que dizer que o Antifónario de Leão está relacionado com o rito moçárabe). Muitas foram as nossas considerações dedicadas ao São Cristóvão que se encontra numa antiquíssima pintura mural da Charola do Convento de Cristo em Tomar, e na qual alguns estudiosos destas temáticas reconhecem também uma representação cinocéfala (cabeça de canídeo).

Calendário do Antifonário onde se verifica um santo cinocéfalo.

Parece derivar este Antifonário de Leão de um outro anterior do tempo do Rei Wamba (séc. VII), o qual seria de grande interesse conhecer para verificar se a referência a Santa Iria não seria então muito anterior ao séc. XI nos livros litúrgicos, acontece porém, ter o vento dos tempos feito o desaparecer. Todavia, o culto a Santa Iria no actual território português parece ser muito mais antigo do que a data do Antifónario apontado, visto ser mencionada no ano de 985 num documento do convento de Moreia relativo a uma venda de um boi avaliado em quinze soldos vindo de Santa Iria (?): “bove que veno de Sancta Eiren in XV.

 Documento do Convento de Moreira

Teremos porém que colocar algumas ressalvas na interpretação deste documento. Pode eventualmente estar mal lido ou confundir o nome da Santa com o de Santarém, ou mesmo ser uma apenas referência a outra localidade de igual topónimo, visto este convento ficar em Vila do Conde, muito distante da Santarém Scalabintana.

Seja como for, não deixa de ser curioso o documento mais antigo que se conhece sobre a Santa Nabantina – se o for – se centre na venda de um animal que parece estar bastante relacionado com Tomar. Curiosamente encontra-se na lápide junto da estátua da Santa na parte exterior do Convento a deitar para o rio uma representação de um boi, e da qual não se conhece datação.


                                            Convento de Santa Iria (Pego)

Também inscrito em outras tantas pedras encontradas em Tomar ao longo do séc. XIX se encontrou a presença do mesmo animal, nomeadamente nas padieiras de muitas portas conforme relata João Maria de Sousa. Aliás existe em Tomar um provérbio que denuncia essa intima relação: "Pela santa Eyreia, lavra e semeia"

Exemplos de pardieiras com curiosas inscrições
 A foto central é nossa e localiza-se no concelho de Sintra.

Mas é do inventário de descrições do Pego que procuramos por agora tratar, e nada sobre isso nos diz referência tão breve, o mesmo acontecendo com todos os calendários portugueses posteriores até chegarmos aos breviários do século XV. Nem mesmo a Inquirição realizada em Tomar em 1317 aborda o local, tão-somente informa que ali existiam duas igrejas que vinham de “tempo antigo”, uma chamada São Fins e a outra Santa Iria, devendo a primeira corresponder à de S. Pedro Fins.

 Pedra que se julga ter pertencido
 à capela de São Pedro Fins

Dos diversos Breviários do séc. XV só conseguimos verificar o Bracarense de 1494, o único impresso, e no qual aparece a lenda quase completamente desenvolvida até ao ponto de incluir a bebida maléfica, a falsa maternidade e a morte de Iria e a consequente ocultação no rio, o que não se verifica nos breviários anteriores, compostos de mais compostura e menos romantismo, segundo nos informa Pe. Mário Martins nos seus “Estudos de Literatura Medieval”, e dos quais falaremos em outro capítulo. Porém não existe uma alusão ao local em concreto tão só nos informa que “ut eam latenter gladio preimeret: et in fluvium deiiceret: ut tantum facinus melius occulteteur”, ou seja, que Santa Iria foi trespassada por uma espada e lançada ao rio para que este ocultasse tal crime, referindo-se então ao Pego sem dele nos dar descrição. (afinal conseguimos ver os anteriores, nomeadamente o Breviário do Soeiro mas não coloca em causa o parágrafo)


Não foi nossa ideia recolher em literatura tão tardia descrição do local à data do martírio da santa no séc. VII, mas sim registar o que nessa época ainda a memória colectiva pudesse conservar. Aliás só após a publicação deste breviário e a de algumas obras que a seguir abordaremos vai surgir a cisterna com as feições que hoje conhecemos.

Por ordem cronológica a obra que se segue é o “Flos Sanctorum” de 1513, a qual fixa definitivamente os elementos biográficos de Iria, constituindo-se como ponto de partida para desenvolvimentos romanceados em obras posteriores, sem contudo fugirem aos seus elementos centrais.

Insolitamente, Vieira Guimarães não insere esta obra nos seus excertos documentais e Amorim Rosa, que deve ter seguido Vieira à risca, também não lhe faz qualquer referência no seu “Santa Iria – Padroeira de Tomar”. Dizem-nos ambos que o nome Nabão atribuído ao rio de Tomar só aparece em 1254 e depois passados 286 anos no Breviário de Évora de 1548.


Na verdade encontrámos o rio designado como Nabão 35 anos antes, precisamente no “Flos Sanctorum”, onde pela primeira vez se dá nome ao hediondo assassino: Banãm (Banão), possivelmente um anagrama da palavra Nabam (Nabão), mas a este assunto nos dedicaremos mais adiante. Aliás é precisamente esta a obra que André de Resende aproveitou para compor o "Breviário Eborence" de 1548, segundo nos informa Pe. Miguel de Oliveira.


“Flos Sanctorum”

No “Flos Sanctorum” também não se recolhe qualquer descrição da cisterna mas acrescenta à lenda a localização do martírio ao dizer-nos que Santa Iria estava em oração “acerca da ribeira do rio” quando foi surpreendida pelo perverso Banãm, sem dúvida uma alusão ao local do Pego sem porém o descrever.

No "Breviário Eborense" de 1548 e no Bracarense do ano seguinte também não se verifica qualquer passagem em concreto sobre a cisterna, apenas e novamente, referência ao local do seu martírio “ocorrido durante a reza das matinas e junto ao rio para o qual é lançada despojada de suas vestes”.


Breviários

Após passar pela “Chorografia de alguns lugares…” de Gaspar Barreiros do ano de 1574 que nada acrescenta ao já recolhido, teremos que chegar ao ano de 1567 (1590) para encontrar na “História das Vidas e Feitos Heroicos e Obras Insignes dos Santos” do Pe. Diogo de Rosário preciosa informação, desta vez, visual, visto a descrição reflectir apenas as que já havemos transcrito. Pela primeira vez estamos diante uma representação – xilográfica - do acontecimento no Pego, podendo-se ver como pano de fundo o que seria o edifício conventual, possivelmente uma reconstituição mas muito de acordo com a realidade do edifício que hoje se conhece.

Da obra “Historia das vidas e feitos heróicos e obras insignes dos sanctos” 
de Frei  Diogo do Rosário - Ano de 1585

É pelas mãos de Frei Rosário que os “Flos Sanctorum” alcançam grande divulgação, conhecendo-se diversas edições que vão desde 1567 até 1590, ao contrário da edição 1513, da qual só se conhece um exemplar (mutilado). Não conseguimos ver a edição de 1567 nem a de 1577, apenas a terceira edição citada no parágrafo anterior, mas estamos em crer ser possível nas duas edições anteriores encontrar-se também a mesma xilogravura. O “Flos Sanctorum” de 1513 também deveria conter ilustração – como acontece para as restantes hagiografias descritas - mas faltam-lhe duas páginas da lenda de Santa Iria, nomeadamente a primeira onde se costuma inserir a gravura, a qual seria porventura a mais antiga representação pictórica da lenda de Santa Iria na literatura.


“Flos Sanctorum” de 1513
Primeira página da lenda de Santa Iria e última (pag.241 a 243)
Curiosamente na marca de água da pag. 241 pode-se ler “Prado” (voltaremos a este assunto, visto também aparecer “Thomar” em outras páginas em branco)

A respeito do local da desgraça de Santa Iria apenas repete o que já havemos dito, ou seja, que “depois de matinas… estar orando na praia do rio, encomendando a sua alma a Deus…e a lançou ao rio”.

Do “Martyrologio dos sanctos de Portugal, e Festas geraes do Reino / recolhido de alguns auctores e informações por alguns padres da Companhia de Jesus” de António de Maris, do ano de 1591, menos ainda se obtêm para conhecer esse local onde Santa Iria padeceu. Quanto à “Monarchia Lusitana”, encontramos no segundo volume, de 1609, eco das obras anteriores chegando mesmo a referir Frei Diogo do Rosário como fonte histórica.

Não existe dúvida de que a forma definitiva da lenda com toda a sua panóplia de personagens e enredo encontra-se já de forma consolidada no “Flos Santorum” de 1513, mas apenas em 1618 encontrámo-la verdadeiramente amplificada e desenvolvida como se de um romance se tratasse. Os novos acrescentos e adições até então desconhecidos na literatura devem resultar de informações puramente verbais que se foram desenvolvendo com o correr dos séculos e aos quais se dá forma narrativa e consistente nesta belíssima obra produzida no Convento de Cristo pela mão de Frei Isidoro de Barreira, à qual confere o extenso título “Historia da vida e martirio da gloriosa Virgem Santa Iria ...” .


Iremos deter-nos um pouco nesta obra já que de caudalosas informações com respeito ao Pego se carrega, antes porém há que debruçar-nos sobre o que pode ser um inédito para a colecção de representações do Pego de Santa Iria (cisterna).

Para surpresa nossa, além do texto propriamente dito, parece existir na imagem da capa uma representação desse local que vimos perseguindo. Esta descoberta, acidental, dá-se à última da hora quando pensámos digitalizar a imagem da Santa e ampliá-la para efeitos de apresentação neste artigo. Não podemos peremptoriamente garantir trata-se de facto da entrada do Pego (cisterna) mas existe forte probabilidade de o ser, não só porque a sua entrada de arco perfeito é idêntica a que hoje se verifica, mas também porque pode ser um dos atributos iconográficos da Santa, afinal de contas está esse espaço intimamente associado ao seu martírio. A janela que se vê não existe hoje em dia mas pode ter existido ou então ser um acréscimo de iniciativa própria do artista para reforçar a ideia da presença do convento como imagem de fundo. Aliás parece ser visível do lado direito o que julgamos ser o amuralhado que divide esse espaço do rio Nabão ainda hoje.




(continua)
Parte I  - Parte III

 Nota: Será a partir desta data que vai começar a surgir referências abundantes à cisterna

12/29/2011

SANTA IRIA DE THOMAR – parte I

Introdução (carregue nas imagens para ampliação)
Autoria: Degraconis e Paulo Peixoto | Cethomar

A manifestação do fenómeno religioso, desde os tempos pré-históricos, tem privilegiado locais onde o profano e sagrado se possam tocar de alguma forma ou esconda em si características mistéricas, esfíngicas ou enigmáticas, e exemplo disso encontramos nos lugares que exprimem todo esse sentimento de distanciamento, seja o alto da montanha ou os cumes das serras, os bosques ou florestas nos sopés das colinas que se estendem por essas acima, a falésia escarpada de difícil acesso ou mesmo as grutas, penhas ou lapas onde a divindade se possa revelar numinosamente.

Nossa Senhora do Marão ou da Serra

Como nos diz Moisés Espírito Santo a “característica mais notável de qualquer santuário é a sua inacessibilidade” e “a maior parte deles situam-se nos montes, ou melhor, numa depressão da montanha ou de uma colina, num cenário natural “belo e horrível” que atrai e assusta”, constituindo-se como um “processo de domesticação” a colocação de um santuário nesses lugares selvagens, até porque a divindade mesmo ao longo da história do cristianismo sempre apresentou resquícios de sentimento pagão, daí muitas vezes se invocar a religião popular quase como em contradição à religião oficial.

 Nossa Senhora da Pena – Na serra de Sintra foi fundado um convento de frades Jerónimos, o qual deu lugar ao actual Palácio da Pena – No centro pode ver-se como D. Fernando em 1839 o viu antes de construir o palácio – Em cima, direita, pode ver-se  um outro templo conhecido como de Santo António ou das colunas. (qualquer uma das imagens estão recortadas para o efeito pretendido)

As origens dos santuários que pontilham mundo fora são frequentemente legendárias e de difícil cronologia ou percurso histórico, e perdendo-se disso lembrança, no decorrer dos tempos tende o homem a colmatar-lhe as falhas de que haja memória, sempre de acordo com a religiosidade vigente, e de pequenas alusões históricas ou simples acontecimentos acabam esses santuários por reivindicarem fabulosas histórias, as quais dificilmente poderão ter qualquer adesão à realidade inicial, situando-se quase sempre em momentos de tal modo longínquos que a história tem dificuldade em confirmar.

Rocha da Mina – local romanizado onde num passado longínquo se terão adorado
estranhas divindades das quais não existe hoje memória.

Decerto, a lenda de Santa Iria, não escapa a estas vicissitudes do fenómeno religioso, e mesmo não tendo origem numa manifestação teofânica, pois assume-se como um acontecimento real do quotidiano nabantino, assume a presença divina lugar central nessa história na medida em que Iria a invoca e, levada pelo rio Nabão, terão os anjos, emissários de Deus, a conduzido em segurança até Santarém onde lhe terão dado digníssima sepultura, hoje marcada por um monumento de lavra antiga.

 Dos painéis da Igreja de Santa Iria da Azóia | Padrão de Santa Iria em Santarém
ao qual dedicaremos a terceira parte deste artigo

Os santuários (e atenda-se ao facto do que veio a ser o Convento de Santa Iria já o era antes desse episódio segundo as antigas crónicas) quase sempre se revestem de carácter excepcional: nascem de invulgares factos ou estão marcados por fenómenos extraordinários, como tal considerados miraculosos, usualmente marcados por características naturais atípicas ou em função de um acidente de paisagem que reforce o seu estatuto de transcendente.


Igreja de Nossa Senhora da Lapa em Soutelo  | Capela Anta na aldeia de Pavia

 Igreja de Nossa Senhora da Lapa em Sernancelhe, Viseu.

Transpondo para a realidade Nabantina o dito e sabendo que a lenda de Iria é indissociável da designada “cisterna de Santa Iria”, outrora conhecida e referida como “Pego de Santa Iria”, excepção se faça à crónica dos monges franciscanos que no século XVIII a referem como cisterna, poderemos pensar ser esse o lugar por excelência, determinante para a localização da lenda e posteriormente, do recolhimento e convento das monjas de Santa Clara na planície de Tomar, ou seja, o sítio  que continha em si alguma particularidade que levou à sua consagração, tendo em conta que a lenda é falaciosa, não obstante eventualmente a lenda conter algum acontecimento real mas bastante diferente do que se veio a fixar muito tardiamente na hagiografia da Santa.
  
 Cisterna ou Pego de Santa Iria

Da procura de documentação que abordasse especificamente a cisterna, de forma a ilustrar o filme que apresentamos com um texto, resultaram relatos e textos que não foram possíveis aproveitar, tendo-se na altura optado pelo texto do Frei Isidoro de Barreira em consideração, quer à sua belíssima obra literária dedicada à biografia da santa, inundada de minuciosas descrições, quer pelo facto de ter sido monge conventual do Convento de Cristo em Tomar.

 Obra de Frei Isidoro de Barreira
Capa da biblioteca de Ruy Barbosa

Por excelência, é a cisterna, doravante designada por Pego, o local que maior fascínio exerce sobre quem se debruce sobre a história do Convento de Santa Iria, uma espécie de Santo dos Santos, não tivesse sido esse o local onde Iria foi brutalmente assassinada por uma sombria personagem, que no seu próprio nome de Banam(/ão) parece encerrar um mistério.

Da obra “Historia das vidas e feitos heróicos e obras insignes dos sanctos” 
de Frei  Diogo do Rosário - Ano de 1585. Sobre esta falaremos mais adiante.

Procurámos então, a partir dos textos que já havíamos seleccionado, saber ainda mais sobre esse local, recolhendo para o efeito os mais antigos textos que o descrevessem, de preferência antes da edificação do edifício quinhentista que hoje todos conhecemos, de forma a tentar perceber se apresentaria esse local alguma característica extraordinária ou constituísse algum “acidente” de paisagem nas margens do rio Nabão que justificasse a edificação de um santuário naquele sítio.

Algumas das obras que iremos abordar, entre muitas outras.

Não foi empresa fácil, até porque alguns deles estão em língua erudita, ou seja, em latim, e não os encontrámos traduzidos para português, já para não invocar a sua escassez e aridez descritiva; não tinham os autores preocupação em dar-nos conta do espaço envolvente, tão só da história e da lenda.

Antes de terminar esta introdução queremos deixar aqui a nossa prestada homenagem a Vieira Guimarães que na sua obra “Thomar Santa Iria” incluiu uma parte que designou por “Excertos documentais” relativos à lenda da santa, recolhidos por si e seus companheiros de pesquisas e em parte, confessa dever ao erudito investigador Pedro de Azevedo.

Diz-nos Vieira que foi um trabalho difícil e demorado – como o sabemos -  e que constitui o contributo que melhor conseguiram para o edifício histórico da cidade dos Gloriosos Templários e dos imortais Cavaleiros de Cristo, terminando por dizer que, outros,  de melhores qualidades poderão conseguir melhor, e se forem vivos, com muitos aplausos os louvarão. Não saberemos se alguma vez poderíamos ser dignos de tais aplausos, mas quisemos também dar um contributo para o seu legado documental e iremos trazer mais algumas obras, tão antigas quanto as suas – algumas mais ainda – para esse “Excerto documental” que é de homenagear.
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12/28/2011

SANTUÁRIO MARIANO EM THOMAR

A desaparecida Capela da Nossa Senhora dos Anjos



“E a velha Calcada de Paialvo, onde tanto peregrino de pé e de joelhos passou em penitência e oração à idolatrada Senhora dos Anjos, desapareceu! Sic transit gloria mundi! E Nossa Senhora, agora, jaz, quase olvidada, numa altar lateral da Igreja de São Francisco.” (Amorim Rosa)

Faz precisamente um ano que publicámos o artigo “Os Pastorinhos de Santa Bárbara” no qual dedicámos no capítulo nono algumas palavras à antiga Capela de Nossa Senhora dos Anjos desaparecida por completo no ano de 1865, tendo a sua pedraria sido empregue nos concertos da Rua da Graça que na altura se levavam a cabo em virtude do desterro da estrada de Paialvo.
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Não sendo propósito desse artigo debruçarmo-nos sobre esta capela, limitámo-nos nessa altura a tímidas descrições informando que era de “alpendres de boa architectura assentes sobre colunas de pedra, casas para recolherem os romeiros e para residência do ermitão, hoje já d’ella nem restam vestígios (…)”, e que a imagem da Nossa Senhora dos Anjos já havia desaparecido, ficando da mesma, uma imagem divulgada na “História de Tomar” de Amorim Rosa do ano de 1965 e a citada descrição do inicio deste pequeno artigo. 


De forma a recordar esse nosso trabalho, nomeadamente o capítulo em questão, vimos acrescentar uma descrição mais alongada da capela e da própria imagem da Nossa Senhora dos Anjos, socorrendo-nos para isso do Tomo III do “Santuário Mariano” do Frei Agostinho de Santa Maria do ano de 1711, o qual na última parte dedica-se à descrição de todos os santuários da Prelasia de Tomar.
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Fica então aqui recorte nosso da obra na parte que interessa ao tema em questão, não se achando por necessário transcrever para português actual por ser de fácil leitura e eventualmente deliciar quem goste de ler no original.



Carregue em cima das imagens para ampliar
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12/26/2011

A CISTERNA DO CONVENTO DE SANTA IRIA

Pêgo de Santa Iria | Thomar
Edição de imagem: Paulo Peixoto | Cethomar
Texto: Degraconis | Cethomar

Foi apresentado este vídeo no nosso grupo privado do Facebook no último dia da feira de Santa Iria, em Outubro. Não querendo deixar de o divulgar ainda dentro do mesmo ano aqui fica agora no blog. No seguimento iremos publicar um artigo dedicado a este local, o do martírio, e ao do sepultamento em Santarém.

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11/26/2011

VIEIRA GUIMARÃES NA COVA DA IRIA|MILAGRE DE FÁTIMA

Autoria: Cethomar
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No âmbito das pesquisas que temos vindo a desenvolver para o artigo que contamos publicar em conjunto com o vídeo da “Cisterna de Santa Iria”, já apresentado no nosso grupo privado do facebook, fomos surpreendidos com uma descrição: Esteve Vieira Guimarães presente no dito “Milagre do Sol” ocorrido no dia 13 de Outubro de 1917 na Cova da Iria.


Não só soubemos da sua presença no local em tal data, conforme confessa, como fomos presenteados com uma singela descrição do fenómeno, assim como também com uma interpretação do que julga ter-se passado naquele momento de epifania.


Não é nossa intenção abordar o episódio, tão só publicar a nota de rodapé que dedicou a esse episódio que considerou como sendo produto de uma histeria colectiva que reflecte a força religiosa de um povo.


Vamos então legar a palavra a Vieira Guimarães sem tecer qualquer tipo de opinião sobre o milagre ou sobre a sua própria opinião que decerto não surpreenderá quem quer seja.



Nota de rodapé do livro apresentado

Após a leitura das linhas que deixou registadas na sua obra “Thomar – Santa Iria”, podem nas próximas imagens tentar identificar a presença de Vieira Guimarães entre a multidão, a qual não conseguimos nós detectar, e repetindo as palavras do Paulo Peixoto: “Procure-se por aquele que tiver com um belo fato Domingueiro”!

Foto de Vieira Guimarães à esquerda, divulgada pelo blog http://tomaracidade.blogspot.com/

Terminaremos então com a partilha de um comovente video a preto e branco, talvez da década de cinquenta, que retrata o episódio no qual Vieira Guimarães foi parte, deveras ilustrativo das descrições da época. Caso para dizer, daquilo que não viu.

(também deixamos aqui ainda um outro video de 2011. Recapitulação?)

11/10/2011

FONTE DA GRUTA DO SANGUE | A MISTERIOSA CRUZ

MATA DOS SETE MONTES
Edição: Paulo Peixoto | Cethomar
Texto: Degraconis | Cethomar


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Para melhor imagem ver no

Este vídeo resulta dos comentários que se foram gerando no nosso grupo privado do Facebook e os quais gravitaram em torno do tema da existência ou não de uma cruz da Ordem de Cristo na entrada da gruta da fonte do sangue na Mata dos Sete Montes. Poderá aderir ao grupo solicitando-o no próprio facebook.
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9/22/2011

QUINTA DO CONVENTINHO - parte III

HISTÓRIA, LENDA E MISTÉRIO -  Links: Apresentação | Parte II
Autoria: Paulo Andrade | Cethomar 

3. Personagens da história do Conventinho | O Ministro e o burlão.

Foi o Conventinho adquirido por António Bernardo da Costa Cabral a determinada altura, o qual o transformou numa sumptuosa e verdadeira vivenda estival.


Vários foram os imóveis de interesse histórico adquiridos pelo primeiro Conde de Tomar, ou pelos quais havia manifestado interesse, tendo por vezes enfrentado oposição por considerarem as suas pretensões imobiliárias abusivas. Talvez tenha sido por esse motivo que a aquisição da Quinta do Conventinho se tenha concretizado por intermédio da sua filha Dona Luisa Maria da Costa Cabral, tendo sido no entanto, ao contrário do que aconteceu com o Convento de Cristo, adquirido em hasta pública, um negócio entre particulares, pois sabe-se que anteriormente havia pertencido a José Silveira, o vendedor neste negócio, e antes deste, património de Teresa Bernarda de Jesus, a primeira proprietária de que há registo após a expulsão dos frades em 1934.


Portugal Antigo e Moderno de Pinho Leal
Archivo Pittoresco Vol VI de 1863

Poderíamos pensar que Costa Cabral teve um especial interesse pelo património que havia sido de origem templária, até porque é conhecido o interesse que manifestou na aquisição de parte do Convento de Cristo e a atenção que lhe concedeu posteriormente, mas a diversidade de imóveis que constituíram o seu património particular não permitem concluir que assim fosse. Terá sido precisamente, o número avultado de interessantes imóveis na posse das Ordens Religiosas que levaram a estas incidências, mais notórias nas ocupações que o estado levou a cabo, quer após a extinção das ordens, quer na implantação da República em 1910.

Uma outra curiosidade deste convento são as notas falsas que por aqui passaram, ou como se diz, que aqui se lavaram nos tanques de forma a dar-lhes um ar de antiguidade e de manuseadas para que fossem tidas como verdadeiras. Também se conta, e com semelhante intenção, que muitas dessas falsas notas eram espalhadas pelo chão da quinta para serem pisadas para ficarem com aspecto de usadas!

Recriação histórica na própria Quinta do Conventinho (fotografado por nós)

Trata-se de mais uma das personalidades que passaram pela Quinta do Conventinho e fizeram história. Foi esta, Artur Virgílio Alves dos Reis e seu amigo José Bandeira, menos conhecido, mas ambos personagens centrais do escândalo das notas de quinhentos escudos envolvendo o Banco Angola e Metrópole e ainda um pretenso Marquês de Sagres.  

Alves dos Reis e José Bandeira conheceram-se em Janeiro de 1924 a propósito de uns negócios em Angola e no dia 6 de Julho de 1924 Alves dos Reis foi preso pela primeira vez em Lisboa, acusado de burla e abuso de confiança, tendo no entanto alcançado a liberdade. Em Junho de 1925 concretiza um dos seus grandes sonhos fundando o Banco Angola e Metrópole, a partir do qual produzem e introduzem no sistema financeiro as míticas notas falsas de quinhentos escudos, havendo após o escândalo estalar, tremer a credibilidade nos bancos. Talvez seja por isso que se fale em guardar notas debaixo da cama!


Da colossal fortuna que somaram, apostaram na compra de imóveis como forma de assegurarem o seu futuro, tendo sido um desses imóveis a Quinta do Conventinho, adquirida em 1925 por mil e duzentos escudos. Todavia no dia seis desse mesmo ano é preso, voltando apenas a ser libertado em 1945, curiosamente convertido a uma nova religião.
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Parte IV

9/15/2011

QUINTA DO CONVENTINHO - parte II

HISTÓRIA, LENDA E MISTÉRIO -  Links: Apresentação e parte I
Autoria: Paulo Andrade | Cethomar 

2. Antecedentes e fundação | Problemática da data da Fundação


Como já referimos, e parafraseando novamente Mendes Leal, “é legendária a existência em Loures do convento franciscano feito pelos Templários de 1200 a 1300 com a denominação — Divino Espirito Santo— da ordem de S. Francisco d'Assis, com a sua grande egreja; edifício esse cahido pelos dois terramotos de 7 e 26 de Janeiro de 1531, dos quaes, em abono da verdade d'este historiado se vêem, pelo interior das hortas, hoje do Saraiva, em Loures, uma respectiva parede antiquíssima com as cavidades de capellas; e também, ha poucos annos, todos viam a citeira hoje, demolida do cimo d'um largo vão de porta, demonstrando ter tido ali sino ou campanário”.
 

Foram então os terramotos do ano de 1531 os responsáveis pela sua destruição, tendo-se posteriormente erguido das suas ruínas em 1541 uma ermida a que deram a mesma designação de Espírito Santo, assim como um albergue e um hospital, por iniciativa da associação de conterrâneos que se denominaram como “Irmandade do Espírito Santo”, substituindo-se assim à Ordem Terceira, mas mantendo a mesma vocação.

Ao mesmo assunto também se reporta o Padre Álvaro Proença na sua obra " Subsídios para a história do Concelho de Loures” em 1940, referindo que “Na vila de Loures existiu um convento de frades capuchos. Era de treze o número de religiosos e nada se conhece do seu início. Parece ter sido construído no século XIII e tinha uma magnífica cerca. Os terríveis terramotos de 7 e 26 de Janeiro de 1531 transformaram-no num montão de ruínas”.


Livro do P. Álvaro Proença e de Vítor Manuel Adrião
Cruzeiro de Loures entretanto desaparecido, vendo-se agora em
 frente à igreja matriz de Loures apenas a sua base
ss
Quanto à sua localização encontrámos referências na publicação da Câmara Municipal de Loures “De Convento a Conventinho, biografia de um espaço”, todavia estamos em crer ter-se apoiado na obra que citamos no parágrafo anterior e que nos diz que "Á entrada da vila, perto do lugar onde está hoje (1940, data do livro) o posto de fiscalização da policia de transito, ainda se vêem os muros velhíssimos da antiga cerca conventual, hoje cortada pela estrada Lisboa-Porto. Dentro desse recinto existiu o edifício do convento e a igreja anexa que o terramoto só deixou ruínas”

Esse antigo convento localizar-se-ia então junto ao antigo posto de fiscalização da polícia de trânsito à entrada de Loures, também desaparecido, designado hoje esse local de Largo José Paulo de Oliveira.

Local do antigo posto de fiscalização, hoje desaparecido

Posteriormente, em 1574, segundo a publicação Câmara Municipal de Loures, ou em 1975, conforme se lê em Mendes Leal e noutras publicações mais modernas, iniciou-se a construção de um novo convento nos terrenos do lugar da Mealhada, a dois quilómetros de Loures, e em memória dos anteriores foi de igual modo dedicado ao Divino Espírito Santo, que desta vez acolheu os franciscanos Arrábidos (e os velhos frades da ermida construída pela Irmandade quarenta anos antes, segundo Mendes leal), construção essa patrocinada por Luís Castro do Rio, fidalgo de Frielas, da família dos Condes de Barbacena em terrenos seus tornando-se assim, além de fundador igualmente padroeiro deste convento.


Antiga imagem do Conventinho

Luís Castro do Rio era irmão de Diogo de Castro, sendo ambos mercadores muito ricos e provavelmente de ascendência judaica. Filhos de António Vaz de Castro e Dona Brites de Castro, só acrescentaram “Rio” ao seu nome após o Rei Dom Sebastião conceder carta de brasão de armas a Diogo de Castro em 1561 e lhe ceder a Quinta do Rio em Sacavém sob obrigação de usar o apelido Rio, e como reconhecimento a Diogo de Castro por serviços prestados à nação como Cavaleiro da Ordem de Cristo. No brasão concedido aos Castro do Rio destacam-se como elementos mais significativos o escudo, uma flor-de-lis (verde), um elmo cercado por uma linha de água e diversas arruelas.


Encontra-se Luís Castro do Rio sepultado numa das criptas da capela – na maior e debaixo do arco triunfal – e da qual dar-vos-emos detalhes mais adiante, informando desde já, ter sido esta cripta aberta e sujeita a investigações arqueológicas e forenses à relativamente muitos pouco anos, não obstante ser provável que já tivesse visto a luz do dia pelas mãos da família Alemã que se estabeleceu na Quinta durante bastantes décadas do século XX, não tendo no entanto, se tiveram de facto a conhecido por dentro, tocado no seu interior, dado que quando da sua abertura aparentava não ser “mexida” à muito tempo, reportando-se a sua abertura e remexidas ao ultimo sepultamento que tivesse abrigado – como se verá mais à frente, foram encontrados mais de duas dúzias de corpos, o que indica ter existido sepultamentos em datas diferenciadas. (entretanto, e como irão ver pela publicação de um email que entretanto recebemos, soubemos ter sido essa cripta aberta na década de oitenta, tendo-se fechado imediatamente)

Foto de como a cripta se encontrava quando da sua abertura
 na década de noventa (mais adiante publicamos imagens actuais)

De certo terão os promotores da abertura da cripta havido ter uma surpresa quando, após terem descido as escadas que lhe dá acesso, foram surpreendidos por uma interessante epigrafia de Luís Castro do Rio que desse modo se dirige em discurso directo a quem “viole” esse espaço. Encontra-se essa inscrição em local estratégico e bem visível - nitidamente intencional – por forma a que seja impossível entrar nessa câmara funerária sem se confrontar com essa voz que parece querer ser ouvida apelando aos leitores dessa mensagem para que não abandonem o cadáver que se encontra vazado da alma.


DVM VIXI VARIAS VOLVEBAM IN PECTORE CVRAS /

  QVIPP(E) QVIES ABERAT QVAE NV(n)C MIHI PARTA SEPV(I)CHRO / EST 
  SI QVANDO HVC VENIAS Ô LECTOR , VOLVERE SAXVUM/
  DESINE NIL PRETER VERMES ET INANE  CADAVER /
  IN VENIES TERRA OSSA FOVET FAELICIOR VMBRA /
  OVTINAM A(S)TRA PETAT ,DULCIQZ FRVATVR OLIMPO/
  HOC IDEO NOS SPONTE DEO DVM VITA MANEBAT/
  CONDIDIMVS TEMPLVM QVO FVNERA NOSTRA QVIESCV(n)T/
  
"Na verdade, o repouso no sepulcro que estava distante, chegou
         agora para mim. Se alguma vez aqui vieres, ó leitor, ler (esta) 
         pedra, nada renuncies, salvo os vermes, ao cadáver inútil . Mais 
         feliz na sombra, (o meu cadáver) conserva os ossos na terra 
         (para a qual) virás. Para tal, nós, por vontade divina, enquanto 
         a vida durava, construímos um templo no qual descansam os 
         nossos restos mortais"
 

Era o Convento da Mealhada – Quinta do Conventinho – casa de frades franciscanos da Província de Santa Maria da Arrábida, cuja Sede Mater foi fundada na Arrábida por Frei Martinho de Santa Maria, Frei Pedro de Alcântara e mais dois outros eremitas espanhóis, tendo o beneplácito do primeiro Duque de Aveiro, Dom João de Lencastre, oferecido a estes inicialmente uma ermida em plena serra e logo de seguida  terras na encosta da serra para construção do convento propriamente dito, alias conhecido como Convento Novo. Contudo é a Frei Agostinho da Cruz, poeta e místico, que na Arrábida viveu quase 20 anos que ficou o convento da Arrábida mais a dever pela sua obra “Elegia da Arrábida”.

Frei Martinho de Santa Maria de olhos vendados 
no Convento da Arrábida

Segundo Frei António da Piedade, conforme deixou escrito na sua obra “Espelhos de Penitentes e Chrónica da Província de Santa Maria da Arrábida” de 1728, obra na qual dedica meia dúzia de páginas à fundação e a notícias do Convento do Espírito Santo de Loures, teria sido a pedra da fundação lançada no dia do Espírito Santo do ano de 1573, o que contradiz as duas datas já anteriormente avançadas.


É esta a obra na qual se tem baseado os mais recentes trabalhos dedicados ao Conventinho, nomeadamente o da Câmara Municipal de Loures a que já aludimos, decerto por ser a que maior destaque dá à história deste Convento, visto ser um dos conventos fundados pelos frades que escreveram a crónica. Todavia, após exaustivas buscas em obras anteriores, encontrámos breves referências à sua fundação, por ventura colhidas junto a crónicas mais antigas, as quais devem ter servido a Frei António da Piedade para a sua compilação histórica, ou mesmo recolhidas junto a memórias dos freires do Conventinho.

Encontrámos precisamente essas breves referências no "Agiológio Lusitano", no volume II e IV, este último posterior à crónica do Frei António da Piedade, criticando-o por não haver dado noticias mais alongadas quanto às virtudes dos freires que habitaram o Convento da Mealhada (Conventinho).


Quanto ao volume II desta obra que data de 1657, anterior à crónica da Arrábida, além de não existir mais do que uma sucinta descrição de sepultamentos que houveram nesta “casa de Loures” e a referência a uma data de fundação que não coincide com outras já adiantadas anteriormente neste artigo, encontrámos uma preciosa informação: Era esta casa, ou convento, a décima terceira da Província de Santa Maria da Arrábida, facto a que não alude a crónica, mas que não escapou ao Padre Álvaro Proença e que possivelmente terá sido extractada desta obra ou de alguma outra lista dos conventos desta província que não havemos conhecido apesar das pesquisas que se fizeram nesse sentido. Vítor Manuel Adrião repete a mesma informação na obra “Ode a Loures”, na qual dedica um capítulo à Quinta do Conventinho.


Chegados aqui iremos tentar desvendar o mistério das distintas datas atribuídas à fundação do Conventinho, já que consultámos e demos-vos a conhecer as obras nas quais as publicações modernas se terão apoiado para fornecer datas diferenciadas. Pois bem, a data de 1574 só a vemos referida na obra da Câmara Municipal de Loures “De Convento a Conventinho, biografia de um espaço“, informando que " A Construção do Convento...iniciou-se no dia do Espírito Santo, no ano de 1574.(Piedade,1728:537)", e que julgamos ter sido deduzida a partir do seguinte parágrafo do “Espelhos de Penitentes e Chrónica da Província de Santa Maria da Arrábida” que informa que “se lançou a primeira pedra em dia do Espírito Santo do anno seguinte de 1573”, dando ideia de que a fundação teria sido então no ano de 1574, visto ser obviamente o ano seguinte ao de 1573. Todavia referia-se o cronista ao ano de 1572 expresso na página anterior, ano em que foi eleito Ministro Provincial Frei Baltazar das Chagas, o qual teve “ânsia” em “dilatar” a província com novas fundações, tendo o feito no “anno seguinte”. Quisesse o autor dizer o ano de 1574, teria dito “do ano seguinte ao de 1573”, invés de “ano seguinte de 1573”, o qual determina o ano em vez de o induzir.

Três excertos das pag.526 e 527 de “Espelhos de Penitentes e
 Chrónica da Província de Santa Maria da Arrábida”, parte I, Livro III, Cap. 45

Resolvida a questão da fundação no ano de 1574, restam outras duas datas: a de 1573 a que alude a Crónica atrás referida e a data de 1575 atribuída à fundação pela generalidade dos autores do último século, como sejam, Pinharanda Gomes, Vítor Manuel Adrião, Mendes Leal e Álvaro Proença, esquecendo por agora obras de menor valor quanto ao tema. Não nos é sabido se estes terão encontrado a data na “Corografia portugueza: e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal” de 1712, visto esta obra avançar com semelhante data ou se terão a recolhido na mais antiga referência que havemos tido conhecido no âmbito deste artigo, ou seja, no “Agiológio Lusitano” (1657, vol. II, pag 272), a qual adianta também a data de 1575.


A nosso ver, e acreditando que Frei António da Piedade houvesse recolhido a data de 1573 junto aos próprios frades do Conventinho - eram da mesma Ordem - que porventura teriam ainda disso memória ou a data inscrita em algum dos seus livros de acontecimentos, alias muito provavelmente obrigatórios como o eram para as restantes Ordens, é bastante credível ser essa data a da fundação, não obstante o “Agiológio Lusitano” ser anterior quase em setenta anos, pelo que cremos ser o ano de 1573 o do lançamento da primeira pedra, como o próprio o diz, e o ano de 1575 (do Agiológio) o da instalação dos frades senão mesmo de conclusão da obra, sendo por norma esta a data que se costuma inscrever numa das pedras do monumento.

Sabemos que em 1580 houve Capítulo da Ordem neste convento, pelo que não estando as obras concluídas em 1575, mas somente criadas as condições de habitabilidade para estes se instalarem, não restará dúvidas que em 1580 já estaria decerto este Convento concluído na sua primeira fase de edificação. Talvez seja mesmo esse o motivo pelo qual se fez Capítulo nesta casa fradesca.

Demoramo-nos nesta questão das datas não somente pelo mistério das datas que havíamos de solucionar (ou tentar), mas também porque o Cethomar, e ao qual agradeço o incremento e aprofundamento do artigo inicial, imponha que se trouxesse algo de novo ao que já havia sido escrito ou dito sobre o Conventinho. Não devia ser este artigo meramente uma divulgação ou promoção do espaço mas sim de alguma forma um contributo, e prova disso foram as fontes originais cedidas pelo Cetarquivo com que temos vindo a ilustrar o artigo e a biografar o Conventinho, assim como esta questão das datas, que resolvida, permitiu-nos então, pela primeira vez, estamos em crer, dar a conhecer em concreto o dia da fundação, já que em todas as obras que consultámos apenas se referir ter sido fundado (ou lançada a primeira pedra) no dia do Espírito Santo, o qual nem sabíamos em que ano em concreto seria.

Pentecostes representado no altar-mór da Capela do
Espírito Santo da Quinta do Conventinho

Apenas com a resolução da questões das datas, e pensamos a ter solucionado, conseguiríamos saber em que dia do ano se teria lançado a sua primeira pedra, visto o dia do Espírito Santo ser móvel, não se lhe conhecendo o dia sem saber em concreto o ano.

O designado dia do Espírito Santo é vulgarmente conhecido como o Dia de Pentecostes, o quinquagésimo calculado a partir do Domingo de Páscoa, havendo então que conhecer inicialmente em que dia se teria festejado a Páscoa no ano de 1573 no calendário Juliano, visto só ter entrado o nosso actual calendário - Gregoriano - em vigor a partir de 1582.

Podemos então afirmar, e se tivermos errados nos cálculos apreciaríamos a critica merecida, ter sido lançada a pedra da fundação do Convento do Espírito Santo de Loures, vulgo actualmente, Quinta do Conventinho, no Domingo de dia 10 de Maio de 1573, o qual corresponde no nosso calendário Gregoriano ao dia 20 de Maio.

Tecto da Sacristia
Representação do Espírito Santo

Parte I - Introdução | Loures Templária
Parte III Personagens da história do Conventinho | O Ministro e o burlão