OITO

7/09/2009

8ªCONFRATERNIZAÇÃO DO BLOG

Dia 18 será o oitavo encontro de confraternização do blog. Para esse encontro temos um programa muito especial e gostariamos de vos convidar a todos.

Dia 18
15.30 h (Mata dos Sete Montes)
Lanche e apresentação de palestra:
“7 Montes, 7 Colinas, 7 Útopias
Em busca da Jerusalém Celeste” por Luís de Matos
20.30 h
Jantar de Confraternização
23.00 h
Tertúlia templária

Dia 19
11.00 h
Visita a Santa Maria do Olival

Todos os nossos encontros são gratuitos, para se inscrever envie um e-mail para oito@thomar.org . Mais informações no nosso fórum:

7/03/2009

PORTA DO HADES

No rasto das misteriosas caves da Charola Templária
Autoria: SCALIBURIS

O texto que se segue foi enviado pelo Scaliburis, um velho amigo do blog, no âmbito de uma conversa que se vinha desenvolvendo no fórum, tendo-lhe sido lançado o repto de ensaiar um texto para publicação de sua autoria. Independentemente da polémica que possa gerar e das questões que levanta, visto ser um tema delicado, somos concordantes em o publicar, destacando desde já o testemunho inédito de um “antigo” e o desenho que dá-nos a conhecer.

Esta história foi-me contada no mesmo local, em duas ocasiões distintas e por pessoas diferentes. Do lugar de Valado dos Frades, hoje Vila, nenhum dos anciãos cuja identidade omito em respeito pela sua memória, se encontra já entre nós. Assim, serei eu a suportar a dúvida do que lhes vou contar.

Foi com enorme admiração que vi publicada no fórum Thomar a foto que identifico com esta história. E friso aqui bem, mais uma vez, que até haver provas do que aqui se conta, não passará de uma história contada por gente antiga.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx Porta do Sangue


Uma abertura que se encontra do lado poente da porta do Sangue, na muralha sul do castelo de Thomar. Em cima a servir de verga, a pedra da suposta porta de Hades, o deus do mundo subterrâneo. É visível a serpente com uma cabeça de dragão de cada lado.

Costumava ir passar uns tempos, nos anos 90, em Maiorga, a casa de um amigo do meu sogro, que tinha sido maquinista dos caminhos-de-ferro em Moçambique, na era colonial. Juntávamo-nos todos e íamos a Valado dos Frades, às festas de São Sebastião e da chouriça.

Como sempre, sondava os velhotes lá do sítio para saber sobre as lendas e tradições da região, vício que, reconheço, me acompanha sempre que me desloco a qualquer lugar. São sem dúvida os nossos melhores “livros” de estudo. Refiro-me à tradição oral, que infelizmente, está em vias de extinção. Palavra puxa palavra e das histórias de Valado dos Frades, passando pelas de Alcobaça, fomos parar às de Thomar.


Pelourinho de Maiorga, vendo-se em segundo plano a capela com portal manuelino. Um excelente trabalho de limpeza e recuperação.

Contou-me este velhote que, “ …se dizia antigamente, usar-se contratar no Valado, mestres pedreiros e carpinteiros para trabalhar nas obras do castelo de Thomar. Isto há muitas gerações atrás. Um destes mestres tinha por costume, quando voltava a casa, fazer o registo das transformações que se operavam no interior do castelo pois sabia que assim se iria repetir, até muito do que era antigo ficar irreconhecível ou até desaparecer.
Uma das obras que o impressionava mais era a que desfigurava a bonita e intrigante calçada árabe que os antigos frades do Templo usavam nas suas cerimónias e que conduzia directamente à cave da Igreja do Templo.
Diziam os frades do castelo que Dom Gualdim Paes tinha trazido do Oriente os planos da construção da Igreja que imitava a do Santo Sepulcro e que tinha mandado fazer a calçada ao estilo árabe pois ambas faziam parte da tradição arquitectónica dos islamitas, e serviam não só para as cerimónias religiosas mas também para as investiduras dos novos cavaleiros. Diziam ainda que o Mestre Templário tinha trazido também algumas relíquias e muitos pergaminhos que guardava numa lapa muito antiga, escavada na rocha em forma de sala que havia no lado direito da entrada da cave e que tinha uma porta a que chamavam a porta de Hades e que quando dela falavam se benziam muitas vezes. Essa porta assentava em cantaria de pedra muito antiga cujas colunas laterais tinham esculpido, um dragão de cada lado que chegavam acima e olhavam uma serpente alada no topo.
Reza a tradição que só lá entrava um velho judeu para trabalhar na tradução desses pergaminhos e que contava já, fruto do seu trabalho, vários volumes manuscritos traduzidos para o latim.
Muito tempo depois desmancharam as cantarias e taparam tudo incluindo grande parte da calçada árabe e as pedras trabalhadas nunca mais foram vistas.
Assim o mestre pedreiro deixou em registo, a descrição do seu trabalho até que o tempo se encarregou de as ocultar. Dizem que em 1936, o padre da freguesia do Valado deitou para o fogo um livro velho que tinha encontrado por detrás do retábulo da capela de S. Sebastião e que talvez fosse o livro de registos do mestre pedreiro. Mas as histórias já se espalhavam há muito, através da tradição oral do povo.



Parte do desenho que me forneceram em relação à "nossa porta".A parte de baixo do desenho foi cortada deliberadamente pois contém informação que me pediram para não reproduzir, por não ser oportuno.


Verdade? Invenção do povo? Um dia, quando houver vontade e coragem de repor o velho castelo como era ao tempo do mestre Templário Dom Gualdim Paes, talvez se confirme a veracidade destes contadores de memórias.

Será que a velha pedra que se encontra ao lado da porta do Sangue é uma réplica ou é a que fazia parte da enigmática porta de Hades, o deus dos subterrâneos? As duas cabeças de dragão estão lá, ambas guardando a serpente alada que os sábios do mundo antigo diziam representar o conhecimento, a sabedoria.

Urge recuperar esta pedra e devolver-lhe a dignidade roubada por quem a colocou à saída de um escoadouro.

x

Velha calçada árabe que integraria o acesso à cave da Charola Templária do castelo de Thomar

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Sobre o desenho apresentado:

Quem me forneceu o desenho garante-me que um seu familiar o executou aquando de uma exploração que efectuou aos subterrâneos do castelo em 1918. É este senhor que detém a descripção desta aventura do seu antepassado e que mo deu a conhecer. Pode-se ler nessa descripção que partes da calçada, da praceta e dos acessos à cave da charola eram visíveis nestes subterrâneos. O desenho da porta foi executado na altura e descrito como uma segunda porta igual à que foi desmontada, atirada para o entulho e cuja verga acabou no local que sabemos.Pode ser difícil de acreditar mas durante muito tempo, quando o castelo esteve em ruinas e abandonado, foi alvo de explorações deste género por parte de particulares, existindo alguns registos coincidentes quanto ao que existe do que foi deixado da época Templária.Eu próprio, em tempos, por lá andei e digo-te que é um mundo.

Muita gente foi ameaçada e alguns até foram molestados principalmente nos anos 40 pelos que foram incumbidos da reconstrução do património em Portugal e que se tornou....

COMENTÁRIOS NO TÓPICO "DO CASTELO E DO CONVENTO DE CRISTO" DO FORUM

(a partir da página 8)

5/16/2009

30 de Maio, visita a quinta da regaleira.

É com muita satisfação que anuncio um novo encontro. Desta vez na forma de uma visita a Quinta da Regaleira no dia 30 de Maio. Mais informações no nosso fórum: http://forum.thomar.org/viewtopic.php?f=8&t=21

4/21/2009

O MISTÉRIO DAS PEDRAS DE SANTA MARIA

Uma foto inédita da Torre
Autoria: João e Degraconis

“Nas obras de reparação dos rebocos exteriores da torre sineira da igreja de Santa Maria dos Olivais nos anos 30, puseram a descoberto catorze pedras de secção rectangular, embutidas nas paredes - quatro em cada uma das faces maiores e três em cada uma das menores - parecendo restos de cachorros que houvessem sido propositadamente cortados”

São estas as notícias que podemos recolher nos anais da UAMOC e que o leitor já deve ter lido num post anterior. Contudo talvez ainda não as tenha identificado, apesar de visíveis nos dias de hoje.

Antes(dir) e depois (esq) de descobertas. Acima da porta vê-se as 4 pedras (esq)

Vista lateral onde consta 3 pedras.

Após descobertas por debaixo do reboco que as encobriam adiantou-se a hipótese de em tempos terem servido de apoio a andaimes de madeira com o intuito de aumentar o poder defensivo das torre militar como era usual na idade média. A sua baixa altitude em relação ao solo fez essa ideia ficar de parte.

Igualmente parece não ter pertencido à galilé que existia junto a Santa Maria, visto a descrição conhecida decorrente da visitação de 1510, a situar na proximidade do pórtico da igreja. Porém julgamos que a descoberta dessas pedras (cachorros cortados) teve repercussões na imaginação de quem fez o desenho do esboço que abaixo apresentamos. Por conseguinte, serviriam esses cachorros de suporte ao telhado.

Revista O Século de 13 de Janeiro de 1932
Tentativa de reconstituição. Como podem ver o telhado confina no local dos cachorros descobertos naquele período.

Parece-nos a nós e aos ilustres da UAMOC este desenho ser um ideia sem fundamento, até porque a altura é excessiva para esses efeitos.

Oscilantes, somos da opinião de que esses cachorros podiam ter tido funções relacionadas com um eventual adarve que rodeasse a torre em virtude de estarem muito próximos do topo da torre no tempo dos templários, a ser desse tempo a origem da fortificação. Lembramos que esta só se viu acrescentada com os seus últimos dois pisos no tempo de D. João III ou dos Filipes.

Aliás, existe opiniões de que a actual porta parece ter sido antes uma janela, assim nos diz J.M.A Sousa. Somos mais inclinados a dizer ter sido a entrada do edifício, que à semelhança do que acontece em Almourol e na torre de menagem do castelo, se encontrava bastante acima da cota da soleira, só acessível por meios amovíveis, de forma a que invasores se vissem em dificuldades para aceder ao seu interior. Portanto não será descabido pensar que em tempos idos estaria o solo abaixo do que está hoje, mesmo não atingindo o nível da porta da igreja (a profundidade dos sepultamentos encontrados no perímetro deve-nos poder dar uma ideia quanto a esse nível).

Correm por Tomar alguns rumores de que pode a torre já ter tido um piso inferior, ou mesmo ainda existir secretamente. Conforme já nos foi relatado por fontes inquestionáveis, existe uma sala inferior e interna na torre de menagem do castelo templário, à qual se pode aceder unicamente a partir do piso onde se encontra a pedra que relata a fundação do castelo em 1 de Março. Teria esta semelhante esquema?

O livro de J.M.Sousa “Noticia descriptiva e histórica da cidade de Thomar” em 1903 descreve de que “corre em Thomar por tradicção que entre o castelo e a egreja de Santa Maria tinham os templários uma via subterrânea que ia desembocar n’aquella torre; outros dizem que dentro da egreja”.

A título de curiosidade também informamos que verificou-se numa sondagem às fundações da torre na década de oitenta, as paredes terem uma orientação ligeiramente diferente da sua base. Pensa-se que podem estas estarem ortogonalmente orientadas como as estruturas romanas da zona.

Terminados estes preliminares confessamos não serem estas as pedras que constituem a razão maior deste ensaio. São outras. E se o ilustrador se serviu dessas pedras-cachorros para (re)construir um alpendre, imaginando-o, servimo-nos nós de outras para "edificar" um castelo.

São muitas as descrições antigas que todos nós já devemos ter lido, mas infelizmente nem sempre conseguimos as ver porque entretanto houve alterações e não se chegou a tirar fotografias. Por vezes quando pensamos que ficou perdido o testemunho ilustrativo, miraculosamente surge uma gravura ou mesmo uma foto. Foi o que aconteceu. (mas ainda não é a foto seguinte)

Nesta foto são visíveis as pedras no chão mas poderiam estar relacionadas com as obras. Pode-se também já ver os “cachorros” cortados.

Esta foto que está acessível nos arquivos da DGEMN apresenta umas estranhas pedras no chão junto à porta da torre sineira, porém e visto o cenário ser de obra julgámos serem essas, eventualmente, material relacionado com a intervenção que estava a decorrer. O assunto ficou encerrado por ai.

Todavia, a semana passada o João enviou-me uma das suas fotos para ilustrar um post que se iria fazer dedicado à evolução da Igreja de Santa Maria dos Olivais ao longo dos tempos, dado estar agora renovada e com novas feições. Nessa foto constatamos novamente o aparecimento dessas mesmas pedras, e sendo essa foto bastante anterior às obras que a foto acima mostra, deduzimos que as pedras eram uma presença antiga junto à torre.


Foto inédita onde se verifica a presença das pedras junto à entrada. A perspectiva do edifício também é única.
Repare-se também que uma das janelas no segundo piso ainda está fechada. As fotos da DGEMN não chegam a ter datas tão recuadas. (foto cedida pelo João)

Detalhe das pedras e pela primeira vez conseguimos ver a porta da dependência do lado esquerdo.

Não só as encontramos na torre mas também junto à janela da igreja, mesmo ao lado da antiga cruz. Já as conhecíamos mas pouca importância demos à sua presença. Agora, e fazendo parte integrante de um conjunto mais vasto, obrigava-nos a repensar que pedras seriam essas. Servirem de assentos pareciam-nos uma função demasiada simples para justificar a sua presença, até porque são bastantes as que se encontram no envasamento da torre.

As pedras junto ao adro e o Sr. Alvazil com o livro das sentenças.

Estariam estas pedras relacionadas com o alpendre publicado na revista "O Século"? A ideia desse alpendre é descabida e como tal não as podemos pensar como parte desse conjunto. Seriam no entanto resultado da desmontagem da antiga galilé que sabíamos ter existido? Ou mesmo da cadeira de pedra que uma memória antiga diz ter existido naquele local junto à fachada onde se ia sentar o alvazil ou o juiz nomeado pelo mestre dos templários para administrar as justiças?

Antes de prosseguirmos para as conclusões a que chegámos vamos inteirarmo-nos do discurso de alguns autores para perceber que ideia se tinha dessa edificação antes do século XX.

“Defronte d’esta egreja há uma torre quadrangular, onde estão collocados os sinos; não foi este o seu destino primitivo, nem se pode bem saber qual elle fosse, assim como não é fácil determinar a epocha da sua construção, a porta parece que foi uma janela; se assim é, os seus fundamentos devem estar ao nível da egreja e n´este caso remonta à epocha dos romanos. Seria então um reducto de qualquer fortaleza?(…) poderia ser uma dependência do convento (…) então será obra dos Templários? Com que fim?” (J.M.Sousa pag 180)

Após visualizarmos vezes sem conta essas peculiares pedras durante esta semana, a páginas tantas, começamos a pensar que a sua forma perfeita e a sua disposição corrida paralela à parede da torre lembrava uma espécie de ameias. Mas estas não costumam estar no chão mas sim no topo das fortificações.

A boa memória e os amplos documentos que possuímos confirmaram de que de facto estávamos diante as antigas ameias da torre, ou pelo menos o que se pensava ser. Foi extasiante pensar que as tínhamos descoberto e tal não era fruto da nossa fantasia.


Esta história faz-nos lembrar a novela do coro alto que existia em Santa Maria. Faz anos que andamos a tentar obter fotografia ou ilustração das descrições que conhecemos mas ainda não conseguimos nos satisfazer com o que já se obteve. Das ameias dispostas junto à torre podemos agora ler e ver em pleno. Dúvidas ou imagens obscuras sobre o que o Vilhena nos descrevia são agora uma visão clara.

Na continuação do texto poderemos ler sobre a sua possível função:


A foto é inédita, não a conhecemos em nenhuma publicação nem no acervo fotográfico da DGEMN, dá-nos uma perspectiva da igreja e da torre até então desconhecida. Conseguimos com bastante nitidez ver a porta de uma divisão que julgamos ter servido para arrumos, e que posteriormente foi demolida, mantendo-se no entanto ainda por muitos anos as restantes edificações anexas que só serão demolidas na intervenção da década de trinta. Permite de igual forma, ver de perto o espaço vazio onde se mais tarde se descobriu a porta manuelina que também só no séc. XX se meteu a descoberto.

Não é oportuno publicar agora uma outra foto, ainda mais antiga do que esta e que julgamos ser do período das obras de 1889 ou anterior ainda, mas podemos desde já adiantar-vos que este espaço vazio foi em tempos coberto por um alpendre. Trata-se talvez da foto mais antiga que conhecemos e que aproveitaremos para especular sobre o antigo coro alto de Santa Maria.

Foto antiga da DGEMN anterior às obras do séc. XX mas onde já não consta a dita dependência nem as pedras nem o tal alpendre da nossa outra foto. O muro do lado direito também já não está completo. Curiosamente a cruz também desapareceu. Desta última daremos paradeiro logo que essa “caça” termine.

Será que estas pedras são parte do conjunto?
Este muro encobre uma das bases da antiga galilé, hoje já visível.

Porta Manuelina


Bem longe já vai esta digressão pelo passado. Não sabemos se de facto aquelas pedras podem ter sido as ameias da torre e fazemos algumas reservas quanto a isso, mas seja como for, serve este post de ilustração ao que os nossos antepassados viam nesses curiosos e intrigantes assentos, já que se limitaram a descreve-los no Archivo Picttoresco sem nos darem possibilidade de os ver. Sabiam lá eles que iriam desaparecer passado meio século.

Santa Teresa D'ávila que assumiu Santa Maria como sua mãe adoptiva, inspirada nos livros de cavalaria, imagina a morada da Alma ou do Esposo (Cristo) como um Castelo Interior, alias título de uma das sua obras literárias. Esperamos com a descoberta das Ameias ter fortalecido a imagem que todos temos de Santa Maria, Mãe dos Cavaleiros Guardiães. Com o Altar já vos presenteamos num outro post. A Cruz brevemente. Tudo a bem da construção do Templo original, quiçá interior também.

COMENTARIOS NO TÓPICO "DO TEMPLO DE SANTA MARIA" DO FORUM

UMA CARTA DO FILÓSOFO DESCONHECIDO

O blog recebeu uma carta de um anónimo sem qualquer possibilidade de saber a sua proveniência. Trata-se de um texto manuscrito cujo conteúdo se apresenta como polémico e de difícil compreensão. Não temos dúvidas quanto ao seu valor e não deixaremos de o publicar apesar de algumas vozes dissonantes aconselhar-nos a não o fazer. Cumpriremos com a vontade do intrigante remetente que nos solicita que a publicação do texto seja feita no dia de São Saturno.
(Será neste espaço inserido o texto)

3/20/2009

TOMAR O CÉU (PARTE I)

HERESIA NA PINTURA QUINHENTISTA PORTUGUESA
Aspectos desconhecidos de uma pintura
Autoria: DEGRACONIS
S
A razão da publicação deste ensaio que deu corpo literário à apresentação do jantar deve-se a dois motivos: 1. aborda um tema muito caro ao blog, Santa Maria 2. é dedicado a Frei Isidoro de Barreira, conventual da Ordem de Cristo em Tomar, sem o qual nunca teríamos decifrado a mensagem inclusa em algumas pinturas portuguesas designadas como Manuelinas. Também é uma homenagem à Primavera que chegou esta semana.

Este ensaio é estruturado em duas partes. A Primeira leva-nos a uma viagem por “coisas” do Céu, e na qual seremos guiados pelo Frei de Tomar, a segunda precipita-nos directamente no Inferno, onde conviveremos com Deuses Infernais.

Antes porém, e para os mais incautos, lembro que a invocação de Santa Maria nos posts do Blog, nem sempre deve ser encarada unicamente no seu sentido literal. Estão em Santa Maria do Olival sepultados todos os mestres templários portugueses, com efeito, falar de Santa Maria, ou mesmo invocá-la é também invocar o Espírito Templário que reside nesse local, um Genius Loci.

APRESENTAÇÃO

Que dizem as obras de arte e que representam? É possível que por debaixo dos nossos olhos os artistas tenham dissimulado mensagens heréticas ainda hoje não reconhecidas e que fazendo parte da estrutura da obra só lhes aumente o valor artístico? Teria sido Portugal como país periférico palco de uma libertinagem criativa por parte desses artistas?
A arte renascentista na qual se insere a pintura quinhentista seria bem mais simples, embora menos interessante, se fosse possível afirmar que cada símbolo tem apenas um significado, mas é raro ser assim. Um quadro pode incluir vários objectos com significados distintos, mas podem ser agrupados como se de notas musicais se tratassem para compor uma sinfonia, que neste caso seria o seu significado como um todo. Pode também acontecer esse quadro ter mais do que um extracto de leitura, mais, até pode vir a ter significados que nunca foram intencionados. Tal é a força do mundo dos símbolos. Já o eram em potência.

O pensamento medieval reorganizou o vasto reportório de símbolos do passado, como sejam os códigos da antiguidade clássica, e os transformou numa nova concepção teológica e religiosa do mundo, tendo-se perdido com o passar dos tempos as chaves que permitem leituras mais profundas desses símbolos que hoje são encarados como meramente estéticos ou decorativos.

Apenas no século XVII, surgem dicionários e tratados que condensam esse vasto reportório iconográfico, para que o artista os possa utilizar de uma forma eficiente sem correr o risco de não ser entendido. Baliza-se assim o pensamento simbólico às definições que essas enciclopédias obrigavam, em detrimento da imaginação individual de cada criador, verificando-se consequentemente a mera aplicação mecânica desses conceitos. Perdia-se na arte a sensibilidade simbólica em prol de uma objectividade tão característica do pensamento moderno.

Num período anterior à famosa obra “Iconologia” de Cesare Ripa (1593), exemplo maior da codificação de símbolos e emblemas numa obra escrita, e ainda anterior aos efeitos que se fizeram sentir com as directivas Tridentinas resultantes do Concílio de Trento (1545 a 1563), que definiram o que seria licito aos artistas representar e de que modo, assim como o que seria considerado herético, encontramos em Portugal a representação pictórica da Morte da Virgem com aspectos muito peculiares em relação ao que se verifica no resto da pintura quinhentista produzida na Europa, designada também como Trânsito ou Dormição da Virgem.

A propósito, as normas contra reformistas do Concílio decretaram as imagens das Trindades Trifontes como heréticas, continuando apenas a representarem-se em espaços rurais longe dos “visitadores” tridentinos, e executadas muitas vezes por artistas não eruditos, conferindo-lhes então apenas uma fuga heterodoxa aos rígidos preceitos oficiais, não se lhe podendo atribuir intenções heréticas. Em Tomar, vários se encontram, das quais a mais conhecida, é a do designado “Hermes Trimegisto”.



Aqui começa as primeiras pinceladas da minha história em busca do significado da romã nos quadros quinhentistas da Morte da Virgem.

O MISTÉRIO DA MORTE DA VIRGEM

SSSSSSSSSSSSSSSSSO Transito da Virgem de Cristóvão de Figueiredo

Nesta obra de Cristóvão de Figueiredo, em actividade entre 1515 e 1543, vemos a virgem no leito da morte a segurar um círio, confortada por São João Evangelista vê-se rodeada pela presença dos doze Apóstolos. Doze Apóstolos? Mas não tinha Judas morrido logo após a crucificação de Cristo? Indignado com este número de apóstolos em redor da Virgem, surge um artigo num blog intitulado “O Mistério dos Apóstolos de Lisboa”.

Respondi de imediato ao artigo, em forma de comentário, de que não se tinha de indignar com tal número, nem mistério algum encerrava.

Aparentemente estava o mistério dos doze apóstolos resolvido, no entanto hoje considero não estarem representados os doze apóstolos, mas sim o próprio Cristo, ideia também avançada pelo Blog citado em relação à personagem que se destaca de todas as outras pela ausência da carga dramática que atinge todas as restantes, sem no entanto fundamentar em que razão podia-se apoiar tal hipótese a não ser pela estupefacção de estar uma personagem a mais no cenário, que este aceitou então como sendo Matias. De facto não o é. (não aprofundarei este assunto neste ensaio)

Nas investigações posteriores que levei a cabo, descubro que não é só este quadro relacionado com a Morte da Virgem que inclui uma romã, mas também as dos outros grandes pintores quinhentistas portugueses. Informo que não encontrei a presença dessa natureza morta na pintura europeia da época. Será uma inovação iconográfica única e exclusivamente portuguesa? Não seria a primeira, e logo que oportuno darei conhecimento de outra solução iconográfica que encontrei em Tomar, desta vez, noutro tipo de suporte artístico. (esta esse trabalho concluído mas o facto de apresentar 30 páginas obrigar-me-á a reestrutura-lo para publicação no blog).

ssssssssssssssssOutro quadro de Cristovão de Figueiredo e um do Mestre de Ferreirim

Verifica-se em mais um quadro do Cristóvão de Figueiredo esta persistência de pintar a romã, mas neste surge Jesus Cristo revelado, o que constitui iconografia rara na pintura portuguesa e também no resto da Europa, excepção se faça ao mundo bizantino. Também em Gregório Lopes, pintor régio de D. Manuel I, e no Mestre de Ferreirim, se assiste a inclusão da romã na pintura. Todos esses quadros, referentes ao mesmo episódio, e todos eles de grandes mestres portugueses do mesmo período. Repare-se que chegaram estes a trabalhar em conjunto em algumas oficinas, o que permite aquilatar a troca de influências.

Curiosamente, não é só a romã que se repete nas diversas pinturas, mas também a presença de uma faca, e em alguns, a representação de um copo coberto com um pano de linho que parece constituir uma espécie de filtro para a maceração dos grãos da romã que em todas pinturas aparecem desfeitos. Mesmo quando não se verifica a presença da romã, é facilmente constatável ver os grãos da Romã desfeitos num recipiente.

ssssssssssssssssQuadro de Gergório Lopes (onde se confunde S.João com Madalena)
sssssssssssssssssse detalhes das obras, onde se constata a repetição de motivos


Que mistério encerra a romã e os restantes elementos? Não se trata de um quadro mas sim de quatro onde sistematicamente se reproduzem motivos tão específicos como um copo coberto por um pano. Necessariamente encerrava uma intenção, que à falta de legenda, se tornava num mistério.

Um aparte; Dan Brown, apoiado na feminilidade da personagem de São João Evangelista da última ceia de Leonardo Da Vinci, identifica a imagem de Maria Madalena, no entanto em Portugal encontramos esse mesmo facto curioso, e é de tal forma exacerbado que a edição dos Museus do Mundo do Público referida pelo Blogger atrás referido, comete o erro de o descrever no quadro de Gregório Lopes como sendo Maria Madalena, esquecendo-se que assim só se verificaria a presença de dez apóstolos. Mas andamos a perder Apóstolos? Podíamos nós portugueses ter servido os propósitos de Dan Brown ainda com maior clareza, quisesse ele.

Antes de avançar no labirinto de significados para o entendimento desta obra, e mais em concreto para o significado dos elementos que se repetem, com seja a romã, os grãos desfeitos, a faca e o copo, terei que dar-vos a conhecer um vulto da literatura espiritual portuguesa, o qual encerra a chave para um primeiro nível de entendimento dessas representações insistentes. Tinha ele que ter íntimos laços com Tomar.


Obras de grandes mestres da pintura europeia, onde eventualmente apenas se figura símbolos marianos fácilmente reconhecíveis. como seja o Terço, o Livro de Orações e uma Vela.

FREI ISIDORO DE BARREIRA

É incerta a naturalidade de Frei Isidóro, mas é dado como natural de Lisboa ou da terra mencionada no seu apelido, que se situa no concelho de Tomar, sendo também desconhecida a data do seu nascimento é certo no ano de 1606 estar a professar no Convento de Cristo.

Por revelar qualidades singulares depressa avançou para o lugar de Mestre e Pregador da ordem. Amante da literatura espiritual é lhe concedida autorização para se dedicar únicamente à produção literária, da qual merece destaque a obra aqui apresentada sobre a símbologia vegetal e espiritual. Um verdadeira tratado de ecologia espiritual, obra rarissima que não encontra ecos na restante literatura da Europa. Prima pela erudição e originalidade demonstrada na descrição das virtudes e vicios humanos a partir das plantas e flores, avançando do alegórico para a pedagogia espiritual moralizante. Reside no seio desta flor da literatura conventual a chave para uma definitiva interpretação da Romã que se encontra no quadro em análise, não obstante ter-lhe descoberto depois ainda mais um nível de significação, o herético.



A titulo de curiosidade, ainda antes de avançar para o significado da romã, posso adiantar-vos que na sua concepção global, apresenta o livro a árvore como símbolo do ser humano, as folhas como as palavras, os ramos os desejos, por raizes entende-se os segredos dos homens, por flores as esperanças e por frutos as suas obras.

Repare-se que raizes aludem ao segredo que se esconde no intimo do homem; quanto segredo não estará guardado na figura homem da janela do capítulo que está envolto de raizes e às quais se agarra.


Esta obra tão distante e curiosa é fundamental para o entendimento do significado dos diversos elementos que encontramos nas obras de arte, e para as quais não temos as chaves que as permitem decifrar correctamente. Tal é a distancia do pensamento do homem moderno do medieval. Entre raizes e frutos se questiona, também hoje, o sentido da vida, na qual as raizes telúricas alimentam a esperança da colheita.

Deixemos temporáriamente respirar um pouco as flores e plantas do Frei Isisdóro de Barreira para depois voltarmos a elas e alcançarmos o significado da romã.

SIMBÓLICA GERAL DA ROMÃ

O simbolismo da romã está ligado ao simbolismo mais geral dos frutos que têm muitas pevides (cidra, abóbora, laranja,). É, antes de mais nada, um símbolo de fecundidade, de posteridade numerosa, assim como de fertilidade.

A mística cristã transpõe esse simbolismo para o plano espiritual, fértil é a palavra das escrituras que quando ouvidas produzem bons frutos e garantem na posteriedade a bem aventurança Acrescenta-se a redondeza do fruto como expressão da eternidade divina e a suavidade do suco como imagem da beatitude da alma. De modo que a romã representa, ao fim e ao cabo, os mais altos mistérios de Deus, seus mais profundos desígnios, e suas mais sublimes grandezas.

Os padres da Igreja também quiseram ver na romã um símbolo da própria igreja. Assim como a romã contém, debaixo de uma só casca, um grande número de sementes , assim também a Igreja une numa só crença diferentes povos e almas diversas sob uma única autoridade, a eclesiástica. A flor que encima a romã, equiparável a uma coroa, reforça esse sentimento, tal como a dureza da casca alude à união e protecção das almas por parte da igreja de Cristo. Alías, é símbolo de Cristo, porquanto o seu suco relembra ao fiel o sangue que Cristo derramou pela humanidade. Descarnada alude à carne de Cristo massacrada pelos golpes inflingidos pelos Romanos.

(façam um corte numa romã bem madura e apertem-na. A analogia é perturbante. Partam-na ao meio e começem a tirar os bagos. Terão oportunidade de ver o quanto se assemelha à carne humana rasgada por chicoteadas. Se forem susceptivelmente sensíveis não o façam)

Na Iconologia de Cesare Ripa atribui-se à Romã a figura alegórica da Concórdia e da Conservação. A primeira como símbolo da concórdia entre as suas diversas partes, das sementes ou bagos, e a segunda pelo entendimento que se verifica entre elas.
Quando figurada na mão da Virgem Maria pode significar Castidade. Esta interpretação terá a sua base no cantico dos canticos IV 12-13. Quando na mão de Cristo pré-figura o sacrificio na Cruz, visto o seu suco avermelhado representar o sangue de Cristo, não obstante, como símbolo da igreja ser também ele, o seu fundador.


Estes são em termos gerais os significados que se lhe atribuem e que podem verificar na internet ou num dicionário de símbolos, porém ficam estes significados aquém do que os pintores portugueses pertenderam com a inclusão da romã num cenário que pouco terá haver, pelo menos directamente, com um cenário fúnebre. Como símbolo de fertilidade, fecundidade ou castidade não encontra contexto na cena retratada. Como símbolo da igreja já não será despropositado, mas deixemo-nos levar pelos aromas de Frei Isidóro de Barreira para chegar às raizes, ou seja, ao segredo.

O PRIMEIRO SEGREDO DO QUADRO REVELADO

A romã em todos os cenários retratados pelos pintores portugueses em questão apresenta-se descarnada e seus bagos colocados dentro de um recepiente, que é o mesmo que dizer, a romã encontra-se DESFEITA. Tal é o espirito que os apóstolos vivem naquele momento de agonia da Nossa Senhora, a saber que, estava o mundo cristão prestes a perder o segundo maior vulto do seu panteão de figuras santas. Encontrava-se a assembleia de Deus, constituida pelos seus apóstolos e feis, DESFEITA, à semelhança da romã. Esta é símbolo da Igreja, e repare-se que São Pedro, primeiro Papa, olha precisamente em direcção à romã.

Mas que dizer da inclusão de um copo com um pano de linho a cobri-lo? Elemento que se repete nas pinturas portuguesas. Com efeito, estão presentes os utensílios necessários à obtenção do suco da romã, ou seja, pela massaração de seus bagos obter-se o designado Vinho de Romã.

Frei Isidoro não só dá um significado geral à romã – conformidade - de acordo com o posterior Tratado de Iconologia do conhecido Cesaear Ripa (concórdia), como lhe lhe atribui mais uns quantos, conforme a parte da romã retratada:

Flor da Romã: Perfeição; Casca da Romã: Modestia e Vinho da Romã: ?

O cenário do ciclo iconográfico da Virgem em questão é de tristeza e emoção, de lágrimas, mas contidas. Como poderiam os fieis acreditar na ressureição e chorar a morte? Seria contraprudecendente para a fé cristã derramar lágrimas, arriscaria-se a meter em causa a crença na mais espectacular e original inovação desta nova religião, o dogma da ressureição do corpo. Contudo de lágrimas sem dúvida.

Surpreendememente Frei Isidóro em relação ao significado do Vinho de Romã escreve que este é o de Lágrimas. E que lágrimas são essas? Deixemos em jeito de homenagem ser ele próprio falar-nos directamente do Convento de Cristo à nossa alma.


Que mais palavras poderei eu acrescentar? Está o Mistério da romã e do copo resolvido. Encontra-se em Tomar a chave de segredos profundos que se tem mantido à vista de todos mas ainda por decifrar. Continuemos o nosso trabalho na pacatez da investigação e mais supresas teremos.

Poderia agora deixarei o leitor reinterpretar o quadro à luz das sublimes frases que sublinhei, mas já agora mais umas quantas.

Conseguiram os mestres portugueses de uma forma genial incluir a emoção das lágrimas no cenário. São lágrimas doces, daquelas que não se entregam à Deusa Gaia mas que ascendem ao mundo de Zeus. Questiona Frei Isidoro sobre o que deverá a alma entregar a seu esposo (cristo). A resposta é um copo de mosto de romãs que são lágrimas de devoção e compaixão. Entrega Santa Maria naquele momento a sua alma a Cristo, que de forma serena se encontra a seus pés para a receber.

E que lágrimas são as dos apóstolos, senão as de devoção a Santa Maria. Adianta-nos também que o mosto de romãs são desejos de martirio e vontade de padecer em atribulações por amor a Deus. Não viriam a ser os apostólos ali reunidos os primeiros mártires do cristianismo? (muito haveria para dizer, pois só vos dei a conhecer a primeira página de sete dedicadas ao significado do vinho de romã)

Nos dias de hoje tornou-se hábito fazer leituras anacrónicas dos símbolos do passado, mas Frei Isisdóro deixou-nos um legado que permite ler com os próprios olhos do passado. Podiamos ter tentado compreender os significados directamente nas escrituras, mas não teria sido tarefa fácil chegar ao entendimento que a mentalidade da época tinha da realidade. Infleizmente só nos chegou ao dias de hoje o primeiro volume da obra do Frei Isidóro de Barreira. Compete-nos a nós o resto do trabalho.

Contudo, apenas se encerra agora o primeiro ciclo de interpretação, encerra o quadro de Cristovão de Figueirdo outro patamar de possibilidades simbólicas, heréticas porém.

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TOMAR O INFERNO (Parte II)

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Trata-se da mais antiga representação autónoma do Inferno na pintura portuguesa. Obra misteriosa e inquietante. A pintura só está documentada a partir de meados do século XIX, no acervo da Academia de Belas Artes de Lisboa proveniente da extinção dos conventos de frades, em 1834.

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A DESCIDA
( as referências mitológicas abaixo referidas são todas de livros editados pela Gulbenkian, e de autores internacionais e nacionais reconhecidos. )

A religião grega, enquanto religião da pólis, é uma religião eminentemente pública, da qual ninguém se podia excluir. Procissões, banquetes, preces, oferendas, eram o veículo dessa manifestação popular. Todavia a par dessa religião oficial sempre existiram cultos secretos, acessíveis únicamente por via de uma iniciação individual especial, os “mistérios”. Muito se tem escrito sobre este mistérios, mas não passam de especulações, a saber que, como religião reservada a eleitos e aos quais era obrigatório o silencio absoluto, pouco sabemos.

O secretismo era radical, porém permaneceu em aberto se nos mistérios o sagrado era proibido ou simplesmente inexprimível. Os Mistérios Eleusínios ou Mistérios de Deméter eram as maiores e mais solenes festas de todo o mundo grego. Os deuses dos mistérios são Deméter e Dionísio (a romã surge do sangue de Díonisio após os titãs o terem dilacerado e devorado). Ingerir a bebida de cevada ou beber vinho são actos que desempenham um papel crucial na encenação mistérica. Pode supôr-se uma suposta base neolítica nos mistérios, com raízes em cultos agrários antiquissimos e também em aspectos de cariz sexual que o homem pré-histórico tem vindo desde sempre a cultuar, dos quais os dois deuses referidos são personificações.

Os autores pagãos nunca foram além de alusões circunstânciais, e os cristãos que se esforçaram por arrancar o véu ao mistério raramente apresentaram mais do que vagas suspeitas. Por sorte, houve um escritor gnóstico que revelou alguns pormenores sobre Elêusis.

Por agora e a interesse do assunto que é a razão deste ensaio, debruçemo-nos únicamente sobre Deméter e a sua filha Prosérpina, personagens chave para este segundo nível de entendimento do quadro A Morte da Virgem.
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ssssssssssssssA Morte da Virgem de Cristovão de Figueiredo - O quadro em análise

sssssssssssssssssssDetalhes dos quadros portugueses da Morte da Virgem
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OS DEUSES
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sssssssssssssssssssssssssssssss ss Deméter (Ceres) na Regaleira

Deméter significa mãe, mas a determinação exacta desta “mãe” permanece um mistério. A interpretação muito difundida na antiguidade, e frequentemente ressucitada, é a de “mãe-terra”, apesar de haver muitas reservas no assunto ainda, mesmo conhecendo –se todas as suas ligações ao mundo subterrâneo. Apesar do ponto de vista linguístico não ser consensual, a expressão “mãe dos cereias” é comumente aceite. O camponês envia preces ao “Zeus Ctónico” – Hades – e a Deméter, pois é ela que lhe enche o celeiro. Aliás, o nome romano de Deméter é Ceres, do qual deriva o termo cereais.

A sua filha Prosérpina, também evocada pelo seu nome enigmático Perséfone, está intimamente ligada a Deméter, de tal modo que com frequência se fala simplesmente das “duas deusas” ou ainda das “Deméteres”, no plural.

Prosérpina vivia feliz, junto de sua mãe, sem pensar no casamento, mas o seu tio Hades (Deus dos mortos e do Inferno) apaixonou-se por ela, e um dia quando esta colhia flores a terra abriu-se e Hades surgiu arrebatando-a para as profundezas infernais. Este episódio é conhecido como o rapto de Perséfone (ou Prosérpina).

Enquanto Prosérpina está desaparecida, Deméter sua mãe ostenta luto e abstrai-se das suas funções divinas de protectora da agricultura. Os bois puxam o arado em vão, os grãos de cereais são lançados à terra inútilmente, nada germina nem cresce, a ordem do mundo foi alterada e a fome ameaça os mortais. De forma a consolar Deméter, Hermes solicita a Hades que a liberte, contudo Prosérpina tinha quebrado uma das rigidas leis do mundo inferior, o que a condenava a não poder voltar ao mundo dos vivos.

A muito custo conseguiu Hermes obter autorização de Hades para que a Deusa permanecesse apenas um três meses por ano no mundo dos mortos, findo o qual podia regressar ao mundo dos mortais, para depois voltar novamente e assim por diante. Desde a antiguidade que se entendia este mito como uma peça evidente de alegoria natural. Prosérpina era o grão que tem de ser colocado debaixo da terra para, depois da sua morte aparente, poderem germinar novos frutos. Este despontar é o regresso, o retorno da benção dos cereias durante o ano, quando brotam na terra as plantas da Primavera. A sua ausência os três meses de Inverno.

Mas que regra inflexível era essa que a condenava aos infernos? Ingerir alimento. Foi seduzida por uma romã, da qual comeu algumas bagas. Portanto, e deste ponto de vista, o mito de Proserpina confere à romã ainda outro simbolismo cristão: refere-se à morte e ressureição, além dos abordados anteriormente.

ssssssssssssssssssss ssssssssssPerséfone (Prosérpina) com a romã

Repare-se que até ao século IV nada se sabia sobre a morte da Virgem, ignorava-se o local da morte e a idade com que morrera. Não existam relíquias de Nossa Senhora, e isso só poderia indicar que teria ascendido aos céus como o foi seu filho. Era inconcebível que o corpo que deu a nascer o salvador pudesse ter servido de alimento aos germes da terra, era a Virgem concebida sem pecado e como tal não poderia ter outro destino que não o mesmo que o de seu filho, até porque no antigo testamento não são poucos os testemunhos de patriarcas e profetas que ascenderam aos céu escapando à morte. Seria a Virgem, a mãe de Deus, menos que todos esses santos?

É de julgar que à falta de tradição apostólica sobre o tema e para estabelecer conformidade com a doutrina crista das escrituras, os evangelhos apócrifos procuraram inspiração no ciclo da morte e glorificação de Cristo. À semelhança do que aconteceu com o seu filho, a Virgem permanece no sepulcro durante três dias e no Domingo o seu corpo é arrebatado aos céus onde se encontra com o seu espírito. Com efeito também a Virgem ressuscitou. Em todos livros de iconografia é o quadro de Boticelli, onde a romã é segura nas mãos de Cristo e da Virgem – ver acima – visto como uma alusão à ressurreição de Cristo e à castidade da Virgem, porém esquecem-se que ambos ressuscitaram.

No quadro em questão a Virgem está prestes a deixar o mundo dos vivos, e num contexto mitológico, está às portas do reino de Hades, não obstante estar garantida a sua ressurreição. Deste ponto de vista, e em conformidade com antiguidade clássica, apresentar-se-á em breve ao casal Prosérpina e Hades.

Terá a Virgem que fazer a travessia do rio para que se apresente à deusa em questão, da qual a romã é o símbolo mais conhecido. Caronte, é o barqueiro responsável pelo transporte dos defuntos, ao qual se paga com uma moeda – óbolo - que devia ser colocada na boca do defunto.


Curiosamente encontramos umas quantas moedas na mesa que suporta os motivos que temos vindo analisando. Será uma alusão velada a esta referência mitológica? A análise das moedas constantes no quadro permite identificar o período do quadro – D. João III – mas, e apesar de obscuro os dados biográficos do pintor Cristóvão de Figueiredo, tais datas seriam fáceis de identificar.

Não encontrei informação que justificassem a sua inclusão na pintura, e à falta desta, numa lógica dedutiva a partir da romã de Prosérpina, presumi que fosse um reforço da ideia que ora se vem desenhando. Não se encontra na pintura uma moeda, mas várias, tal devia ser o valor do defunto a transportar, não era a virgem um comum mortal, mas sim uma das maiores riquezas dos tesouros do cristianismo. O facto de tratarem-se de umas quantas pode também ser uma forma de não aludir directamente a Caronte, dissimulando-se a intenção, até porque em tempos medievais, e veja-se os sepultamentos encontrados em Santa Maria, era ainda comum essa prática. Religião popular que nem sempre estava de acordo com a oficial, mas tolerada.

Após já ter esta ideia relativamente ao papel das moedas, no verão tive oportunidade no Museu do Prado adquirir uma das obras mais citadas nestes temas – Iconografia del Arte Cristiano – onde procurei saber se não seria comum esta referência a Caronte. Eis que numa singela nota de rodapé: “ En ciertas pinturas franco flamencas y alemanas, se advierte un curioso detalle iconográfico: hay una moeda pegada al círio mortuorio. Es possible que se trate del óbolo de la barca de Caronte, barquero de los muertos”. Portugal esquecido? Quanta falta de pudor tinham os nossos artistas. Seria o espírito ecuménico e sincrético da Ordem de Cristo a permitir tanta heterodoxia? Consegui uma dessas pinturas e aqui fica para vossa apreciação. (o livro citado são cinco volumes não editados em Portugal).

ssssssssssssssssssss sssssssssss ssssssssA moeda no círio

Na obra “Arte y Mito – Manual de Iconografia Clásica (pag. 591)” do prof. Catedrático Miguel Ángel E. Barba, ex-director do Museu Arqueológico Nacional de Madrid, refere este julgar ser só na época moderna (1877) a romã representada na mão de Prosérpina, quando aparentemente devia ser um elemento bastante lógico e provável de exploração nas artes plásticas, tendo só isso se verificado na literatura. Pelos visto em Portugal já o tínhamos utilizado trezentos anos na pintura.

Os símbolos tem que ser contextualizados, variados são os seus significados e às vezes até contraditórios, a romã é um fruto funerário e deve ser com esse sentido que alcança lugar no cenário da morte da Virgem nas pinturas portuguesas, apesar de os seus significados mais conhecidos serem outros. No tempo dos romanos dizia-se ser a comida dos mortos, e no Egipto foram encontradas flores de romã nos sarcófagos.

Podem estar neste momento horrorizados com a ideia de estar associar-se ao santíssimo vulto da Virgem, noções heréticas de personagens conectadas com o inferno. Como pode a Virgem ter por destino mundos infernais? Impõem então clarificar as noções do além e da sua cartografia nos domínios da antiguidade clássica.

INFERNO E PARAÍSO

O Nome Hades pode levar a confusão, porque era usado pelos antigos gregos tanto para o deus que mandava no Mundo Inferior como para o próprio Mundo Inferior. Embora fosse o reino dos Mortos, o Hades grego não se parecia com a idéia posterior de inferno, um sítio onde os condenados sofriam penas eternas. Era um lugar para onde todos os mortos – bons ou maus – seguiam, guiados pelo deus mensageiro Hermes que conduzia então a sombra do morto para longe dos parentes em lágrimas (romã cristã), cada vez mais para baixo, até a entrada do Hades. Só quando lá chegavam era decidida a sua sorte.

sss sssssssssssO reino de Hades onde se vê Hades com a sua consorte Prosérpina
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Depois de serem julgadas, as sombras eram levadas por três caminhos. Um desses caminhos conduzia aos Campos Elísios, onde só chegavam os grandes heróis ou aqueles que tinham agradado aos deuses com sacrifícios ou um trabalho realizado à custa da própria vida.

Ali brilhava o Sol e as poucas nuvens no céu eram brancas e leves. Cantavam os pássaros por entre as árvores, principalmente nos ramos de um alto álamo que fora em tempos a filha do deus Oceano. As clareiras estavam sempre cheias do som de alegres músicas tocadas por flautas e liras, e havia sempre danças. Aqui nunca havia noite, porque as sombras não precisavam descansar. Faziam-se banquetes sempre que havia ocasião. O vinho corria em cascata, mas ninguém lhe sofria os efeitos, porque era impossível beber demais. Grandes salvas de uvas e romãs eram servidas no fim de cada banquete. Estes gozavam de um privilégio: podiam, se quisessem, voltar à Terra.

Portanto, na mitologia grega, os Campos Elísios é o paraíso com uma descrição semelhante ao céu dos cristãos e muçulmanos. Neste lugar só entram as almas dos heróis, santos, sacerdotes, poetas e deuses. É no seio deste contexto que temos que interpretar a alegoria contida no quadro. À semelhança de todos os defuntos a Virgem teria que passar por esse mundo, alías o próprio Cristo desceu a mundos iguais após a sua morte, antes de ascender ao céu, ou seja aos Campos Elísios.

Mas podemos ir ainda mais longe nestas intenções secretas.

Na mitologia grega, Hades é o deus do submundo e das riquezas dos mortos, preside as riquezas agrícolas . É ele quem faz as sementes se desenvolverem depois de plantadas no solo e é quem dá a produtividade e a abundância nos campos. É o deus das riquezas e dos tesouros escondidos debaixo dos nossos pés, nomeadamente os auríferos como seja o ouro.

Contudes, Hades era tão temido que ninguém ousava pronunciar seu nome, e quando era para se referir a ele, usavam outras definições. Por bastante tempo, o apelido Plutão substituiu o verdadeiro nome de Hades, dando origem ao deus romano com esse mesmo nome. Como divindade agrícola, eram-lhe consagrados o narciso e o cipreste (cemitérios) e seu nome estava ligado a Deméter (Ceres) e junto com ela era celebrado nos Mistérios de Êleusis que eram os ritos comemorativos da fertilidade, das colheitas e das estações.

Plutão significa “o rico”, “riqueza”. E que símbolo por excelência representa riqueza? Moedas!!! Quantas moedas de ouro não estão no quadro. Além da atribução das moedas a Caronte, poderemos encontrar ali uma referência a Plutão (Hades)? As moedas chegam para os dois. Teremos então o panteão dos Deuses que presidem esses mundos e para o qual o defundo se dirige, completo no quadro. Romã e moedas, Prosérpina e Plutão.

sssssssssssssssssssssssssssHades (Plutão) com Prosérpina (Perséfone)

O misterioso Grão Vasco, considerado o maior pintor quinhentista, utiliza-se desse símbolo para representar ouro no quadro “Adoração dos Reis Magos”, pintado entre 1501 e 1506 onde a figura do Rei Mago Baltazar é substituída por um índio brasileiro, o que confere a este quadro um enorme valor documental pois pela primeira vez na Europa se representa um ameríndio.


Julgo essas moedas não terem expressão simbólica como Vanitas ou serem apenas uma alusão à efemeridade da vida, papel usualmente atribuído a naturezas mortas e à figura da caveira.

Questionado sobre a faca que se repete em todas as pinturas e até sobre a caixa que se encontra pintada em duas, decido continuar o tema, até porque se a romã e as moedas estão dotadas de tanta carga simbólica, não poderiam os outros ser meramente decorativos. Vejamos se os conseguimos de forma credível os encaixar no cenário herético.

Recuemos da morte ao nascimento, para encontrar significado para a faca. A faca tem como função cortar, a romã, porque foi necessária ao seu corte, e de um ponto de vista simbólico ou alegórico, cortar o fio da vida que se inicia no nascimento. Porcurei então pinturas portuguesas do Nascimento da Virgem, e não é o meu espanto quando encontro a seguinte pintura.

O desenrolar da fita, para quem tiver familiarizado com temas artísticos da antiguidade clássica e da renascença, transmite a sensação de “deja vu” relacionada com as famosas Parcas.


Em Roma, as Parcas determinavam o curso da vida humana, decidindo questões como vida e morte, de maneira que nem Júpiter podia contestar suas decisões. Nona tecia o fio da vida, Décima cuidava de sua extensão e caminho, Morta cortava o fio. Eram também designadas fates, daí o termo em ingles "fate"(destino). Na sua origem devem ter sido demónios ligadas ao nascimento, porém com o passar dos tempos ganharam as características enunciadas. Elas apareciam como fiandeiras fixando a vida humana.

Talvez seja este o significado aribuído à presença da faca em todas as pinturas a par da romã, aliás as parcas estão relacionadas com as deusas que referimos, mas por economia de espaço cortarei por aqui o fio quanto às Parcas.


Só nos resta a cesta ou caixa que aparece em duas das pinturas. Voltemos aos Mistérios da religião grega, porém apenas para remate do tema. “A representação última dos mistérios é o cesto fechado por um tampa, a cista mystica, e só o iniciado sabia o esta Kisté ocultava.” (Walter Burkert, a maior sumidade em religião grega, Religião Grega na epóca clássca e arcaica, pag. 528).

O REGRESSO

Palavras finais: Um dia perguntaram-me como era possível estar eu tanto tempo parado diante de uma pintura. Parado!!! Acabei de ir aos Ceus e de regressar dos Infernos.

A arte renascentista na qual se insere a pintura quinhentista seria bem mais simples, embora menos interessante, se fosse possível afirmar que cada símbolo tem apenas um significado, mas é raro ser assim. Um quadro pode incluir vários objectos com significados distintos, mas podem ser agrupados como se de notas musicais se tratassem para compor uma sinfonia, que neste caso seria o seu significado como um todo. Pode também acontecer esse quadro ter mais do que um extracto de leitura, mais, até pode vir a ter significados que nunca foram intencionados. Tal é a força do mundo dos símbolos. Já o eram em potência.

Os símbolos são a forma mais comum dos artistas transmitirem significados nos seus quadros, utilizando-se de objectos simbólicos. Alguns símbolos são fáceis de decifrar mas outros exigem mais explicações. Ao longo dos tempos os significados vão se alterando e perdendo-se, outros mantem-se ocultos por intenção deliberada de quem os desenhou, ficando à espera de que alguém um dia os traga à luz do entendimento.

Que seja esta a luz que vos traga do inferno para Tomar o Céu.

Deste quadro apenas direi que trata-se de uma caixa oferecida por Prosérpina a uma personagem que se identifica com a alma humana (qual?) e que quando a abriu descobriu lá dentro sono tendo por isso adormecido. No entanto foi salva do mundo de Prosérpina por outra personagem que se identica com o Amor (qual?). A iconografia da morte da Virgem tem raízes em Bizâncio e o termo designado para este episódio da Virgem é Dormição da Virgem, o qual deriva do termo dormir.


3/19/2009

NOTÍCIAS DA CONFRATERNIZAÇÃO

As sublimes palavras do artigo que se publicou hoje no jornal o "Templário" servem para ilustrar o nosso fim de semana, pelo que abstenho-me de mais. Têm a força de um poema!! Obrigado.
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A NOTÍCIA
(excepto o texto da caixa)
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O Blog http://blog.thomar.org/ dos Cavaleiros Guardiães de Santa Maria do Olival tem vindo nos últimos tempos a tornar-se uma referência na blogosfera Tomarense. Não são só os polémicos temas Templários, mas sim e também, os constantes alertas de atentados ao património, havendo quem já os intitule de Zeladores do Património histórico, que lhes tem trazido alguma popularidade. São um grupo jovem de pessoas independentes que de uma forma criativa e original vão dando notícias periódicas das suas investigações e preocupações sobre os livros de pedra que constituem a herança de dois mil anos de sucessivas construções em Tomar. É essa força do passado que os move em direcção ao futuro.

Desta vez, e verificado nos últimos tempos, um substancial aumento de visitantes no blog e no fórum, onde vão se debatendo temas propostos, decidiu-se organizar formalmente a confraternização usual, tornando possível uma visita a espaços do Convento de Cristo não acessíveis ao público em Geral e à volta dos quais existe toda uma aura de mistério, como seja, a Torre de Menagem do Castelo e a Sala, que o autor do Pêndulo de Foucault, Umberto Eco, designa como a sala de iniciação onde decorreram possivelmente estranhos e misteriosos eventos em tempos recuados. Como não poderia deixar de ser, também a peregrinação contemplou uma espreitadela nas estelas funerárias expostas no Claustro da Lavagem que a sobejamente conhecida UAMOC – União dos Amigos dos Monumentos da Ordem de Cristo - recolheu nos princípios do século XX no concelho e principalmente na necrópole da Igreja de Santa Maria do Olival, talvez a maior da Europa, dizem actualmente os especialistas. Aliás referem os “Cavaleiros de Santa Maria” terem como fonte de inspiração essa União que tantos ilustres Nabantinos albergou e de quem o povo ainda não se esqueceu.

Mas se Tomar vive ainda hoje muito do espírito mítico Templário, das suas lendas e mitos, optou a organização por convidar um dos responsáveis do Convento para guiar a visita, não só com o intuito de dar a conhecer uma história mais factual, mas não menos fantástica, à quase meia centena de pessoas que aderiram ao evento, mas também informar das últimas investigações que se estão a levar a cabo actualmente e que brevemente irão ser comunicadas e publicadas em livros e publicações especializadas.

O Jantar ocorreu no restaurante Tabuleiro e participaram 35 pessoas oriundas dos mais diversos pontos do país, de São João da Talha no Porto a Lisboa, e das mais diversas áreas profissionais, diversidade que também encontra ecos nas idades dos participantes, dos quinze aos oitentas. No entanto verificou-se estarem em minoria os naturais de Tomar.


Que dizem as obras de arte e que representam? É possível que por debaixo dos nossos olhos os artistas tenham dissimulado mensagens heréticas ainda hoje não reconhecidas mas que fazem parte da estrutura da obra, sem no entanto lhes retirar valor artístico. Teria sido Portugal como pais periférico palco de uma libertinagem criativa por parte desses poetas do pincel da cor? Foram estes os motes para a apresentação que ocorreu no Jantar sobre elementos heréticos na pintura portuguesa quinhentista, autentica viagem ao período Manuelino, dando a conhecer os artistas responsáveis pelo surto pictórico que ocorreu nessa época de grandes prosperidade económica. Iniciou-se a palestra com a leitura de poesia dedicada aos monumentos Tomarenses e acabou com a leitura de trechos do livro escrito no séc. XVI pelo Frei Isidoro de Barreira no Convento de Cristo, “Tratado da Significação das Plantas e Flores constantes nas Sagradas Escrituras”, chave para a interpretação dos mais variados elementos iconográficos constantes na brilhante pintura da época, onde se demonstrou também a inclusão de referências indirecta à antiguidade clássica veladas em temas de carácter cristão. Como momento lúdico, projectou-se também o quadro do Pentecostes existente na Igreja de Santa Maria do Olival, onde insolitamente surge um Apóstolo, talvez São Pedro, com seis dedos nas mãos e quatro nos pés. Espera-se a publicação dessa apresentação brevemente no blog.

Após uma noite de romaria (e porque de romãs muito se falou na palestra) pelos diversos locais de divertimento da noite de Tomar, e prestada a devida homenagem na antiga Praça D. Manuel I ao Mestre Gualdim Paes antes de renderem-se a sonhos com cavaleiros e navegadores, reuniu o grupo às onze horas de Domingo na Igreja de Santa Maria do Olival, onde se deu a conhecer a historia do local que deu nome ao blog. O grupo reduziu-se visto nem todos terem pernoitado em Tomar, mas ainda se via aproximadamente 20 pessoas a deambular na Igreja. Desde a famosa pedra obliqua, sobre a qual correm rumores de ser o acesso à um subterrâneo que liga a igreja ao convento, até à demonstração da beleza artística do tumulo do Bispo Diogo de Pinheiro, obra de arte renascentista, aprendeu o grupo que Santa Maria foi modelo de todas as outras igrejas que se construíram nas províncias ultramarinas aquando da expansão Portuguesa por terras do além mar.

Deu-se o desfecho pela hora de almoço, tendo o grupo se desmembrado, não obstante nessa tarde ser possível encontrá-los dispersos nos diversos monumentos que não se teve oportunidade de visitar. De Pegões a Almourol, passando pela Igreja de São João Baptista poder-se-ia verificar a presença destes Guardiães tão ligados à herança do passado, como se fossem marcos ou padrões vivos disseminados pelo concelho.

À semelhança das cidades antigas de Roma, de Jerusalém, Constantinopla ou mesmo Lisboa, onde 7 colinas são um testemunho do seu carácter sagrado, a Mata dos 7 Montes será nos próximos meses o local onde se irá promover um piquenique, aproveitando-se o momento para dar a conhecer a “Ecologia Espiritual” dessa mítica mata que se pode aquilatar como o paraíso edénico da cidade. Como alguém diria, da Charola à Charolinha." Fim


Fim

(não se publicam fotos porque não pedimos autorização para isso, ficam as do Jornal e esta com o sol a iluminar-nos o caminho de regresso)

COMENTARIOS NO TÓPICO "7ª CONFRATERNIZAÇÃO DO BLOG " DO FORUM

3/13/2009

TOMAR - CORAÇÃO DE PORTUGAL

UMA LIGEIRA APRESENTAÇÃO DE TOMAR

Em jeito de complemento aos eventos previstos para o fim-de-semana de confraternização, publicamos no blog dois vídeos relacionados com a cidade de Tomar.

Este vídeo é o primeiro de uma série de três, podendo os interessados encontrar os outros dois no youtube com o mesmo nome.

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Este vídeo pretende ser uma apresentação sumária da Cidade de Tomar, aliás trata-se de um vídeo promocional com intuitos turísticos.

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Desta vez a afluência de interessados ultrapassou todas e quaisquer expectativas dos organizadores. Apesar de já ser a Sétima Confraternização, e que faz nesta data dois anos, é a primeira com eventos organizados formalmente. Até ao momento tinha sido apenas e tão só o encontro dos que frequentam o Blog.

Se Tomar no passado foi durante bastante tempo Fronteira - de Portugal - pois dividia o reino da cristandade do muçulmano, hoje é Coração, pois encontra-se no centro deste nosso Reino. É dessa forma que os esperamos no Sábado.

Aproveitamos o momento para divulgar o Projecto Máquina do Tempo, que se reveste de um carácter pedagógico relacionado com a divulgação e valorização do património resultando de uma parceria entre diversas instituições.

http://www.ttt.ipt.pt/

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